PARTE 1
“Se essas crianças derem mais um passo, chamarei a segurança e as retirarei do funeral.”
A voz de Beatriz Alcázar rompeu o silêncio do mausoléu da família como um tapa na cara. Diante dela, Valeria Mendoza permanecia imóvel em seu impecável uniforme militar, com um grosso envelope sob o braço. Ao seu lado, seus cinco filhos, vestidos de preto, contemplavam o caixão de um homem a quem nunca puderam chamar de avô.
Dez anos haviam se passado desde que Valeria deixara aquela família, acusada de uma infidelidade que jamais cometera. Sebastián Alcázar, seu então marido, recebera fotografias borradas, uma conta de hotel e uma declaração de uma recepcionista. Não lhe permitiu se defender. Assinou os papéis do divórcio em menos de duas semanas e, seguindo o conselho da mãe, ordenou que Valeria jamais o contatasse novamente.
Naquela mesma noite, Valeria tentara lhe contar que estava grávida.
“Não use uma criança para encobrir o que você fez”, respondeu ele, sem sequer olhar para ela.
Humilhada e sem dinheiro para enfrentar os advogados de uma das famílias mais influentes de Guadalajara, Valeria terminou seu treinamento militar e foi embora. Meses depois, um médico lhe mostrou cinco pequenos corações batendo em uma tela.
Eram três meninos e duas meninas. Todos nasceram prematuros. Valeria passou semanas indo de incubadora em incubadora, aprendendo os horários dos medicamentos e rezando para que nenhum deles parasse de respirar. Sebastián nunca soube que eles existiam. Ou pelo menos era o que ela queria acreditar.
Com o passar dos anos, as crianças começaram a fazer perguntas. Mateo queria saber por que tinha o mesmo sobrenome da mãe. Nicolás desenhava árvores genealógicas, deixando um espaço em branco. Diego fingia não estar interessado, embora guardasse recortes de famílias inteiras. Camila perguntou se o pai sabia andar de bicicleta. Certa noite, Sofia, a caçula, perguntou:
“É possível sentir falta de alguém que nunca te conheceu?”
Valéria chorou em segredo depois de responder que sim.
O único membro da família Alcázar que lhe escreveu foi Dom Arturo, pai de Sebastián. Ele não se desculpou em nome de todos, mas reconheceu algo que ninguém mais ousou dizer: “O silêncio também pode se tornar crueldade”. Valeria guardou aquela carta por anos.
Quando Dom Arturo morreu, as crianças encontraram o obituário sobre a mesa.
“Ele era nosso avô?”, perguntou Mateo.
Valéria assentiu.
“Então queremos nos despedir.”
Por isso estavam ali, no mausoléu particular da família, diante de Beatriz e dezenas de convidados que já começavam a murmurar. As cinco crianças tinham os olhos de Sebastián, o queixo, o jeito de franzir a testa. Era impossível não vê-lo.
Beatriz deu um passo em direção a Camila.
“Essa mulher está usando-as para fazer um espetáculo.”
Valéria segurou seu pulso antes que ela pudesse tocar na filha.
“Nunca mais encoste um dedo nela.”
Nesse instante, Sebastián se virou do caixão. Olhou primeiro para Mateo, depois para Nicolás, Diego, Camila e Sofía. Seu rosto empalideceu. Parecia estar vendo sua própria infância se repetir cinco vezes.
“Valéria…”, sussurrou. “Quem são eles?”
Ela ergueu o envelope.
Antes que ele pudesse responder, Beatriz pronunciou uma frase tão desesperada que todos ouviram:
“Não abram esses documentos aqui.”
E Sebastián, pela primeira vez em dez anos, olhou para a mãe como se tivesse acabado de conhecer uma estranha.
O que você teria feito no lugar de Valeria: revelar a verdade para todos ou proteger as crianças e ir embora? Conte-nos o que você pensa e aguarde a segunda parte.
PARTE 2 Para mais informações, continue na próxima página.