Enquanto viajava com meu filho para visitar o avô dele, que supostamente estava à beira da morte, um homem desconhecido ficou tocando minha perna por três horas. Antes de desaparecer, ele murmurou: “O doente não é quem você pensa que ele é”. Guardei o bilhete, mas ao abrir uma carta secreta do meu falecido marido, descobri que o acidente dele escondia algo muito pior.

PARTE 3

Senti como se o mundo estivesse desmoronando sob meus pés.

Liguei para Mateo. O telefone dele estava desligado. Então Rodrigo ligou.

“Não faça escândalo”, disse ele. “O menino está bem.”

“Deixe-me ouvi-lo.”

Houve silêncio, e então ouvi a voz do meu filho.

“Mãe, estou em um depósito. Não tenha medo. Estou bem.”

Ele tentou parecer corajoso, mas eu conseguia ouvi-lo respirando com dificuldade.

“Estou indo te buscar, meu amor.”

Rodrigo atendeu o telefone novamente.

“Traga o pen drive original. Nada de cópias, nada de polícia, nada de Julián. Se você fizer algo inteligente, Mateo voltará para você. Se não, amanhã todos dirão que você fugiu com seu amante e abandonou seu filho.”

A ligação terminou.

Minhas pernas tremiam, mas minha mente começou a funcionar com uma estranha clareza. Rodrigo não sabia que Daniel tinha salvo cópias na nuvem nem que César já havia entregado documentos à promotoria. O pen drive que ele procurava era importante, mas não era a única prova.

Julián queria vir comigo.

“Ele disse para eu ir sozinha.”

“E se você obedecer, não vai sair de lá.”

Ligamos para a polícia estadual e para o agente que havia reaberto o caso de Daniel. Combinamos que eu iria até o porto com um pen drive idêntico, enquanto eles entrariam pela entrada do depósito. Colocaram um pequeno transmissor sob minha blusa.

Antes de sair, Teresa apareceu na porta. Ela tinha ouvido parte da conversa.

“O Rodrigo levou o Mateo?”

Eu não podia mentir para ela.

A mulher colocou as duas mãos no peito. Por anos ela havia defendido o filho caçula, mesmo quando suspeitava de seus negócios. Mas dessa vez algo se quebrou em seu rosto.

“Eu vou com você.”

“É perigoso.”

“Ele é meu filho”, ela respondeu. “E é exatamente por isso que preciso impedi-lo.”

A chuva começou quando chegamos ao antigo cais de pesca. As luzes piscavam na água escura. Rodrigo estava dentro de um depósito, com Mateo sentado em uma cadeira. Ele não estava amarrado, mas um homem guardava a porta.

“Mãe!”, gritou meu filho.

Quis correr, mas Rodrigo levantou a mão.

“Primeiro a memória.”

Mostrei-lhe o dispositivo.

“Solte o Mateo.”

Rodrigo deu uma risada cansada.

“Você sempre foi mais difícil do que o Daniel deixava transparecer.”

“O Daniel nunca falou mal de mim.”

Sua expressão mudou.

“O Daniel achava que era melhor do que todo mundo. Ele queria entregar a empresa, destruir o nome da família, mandar o papai para a prisão e me deixar sem nada.”

“Ele queria impedir você de roubar.”

Rodrigo cerrou os dentes.

“Eu construí a Transportes Salgado quando ele foi para a Cidade do México bancar o marido perfeito. Negociei com sindicatos, quitei dívidas, garanti rotas. E no fim, tudo foi para o filho dele.”

“Mateo é uma criança, não seu inimigo.”

“Ele detém 48% das ações. É claro que ele é meu inimigo.”

Essa frase foi gravada pelo transmissor.

Teresa emergiu das sombras.

“Rodrigo.”

Ele congelou.

“Mãe, o que você está fazendo aqui?”

“Vim buscar meu neto.”

“Você está comigo.”

“Estou com o que ainda posso salvar de você.”

Pela primeira vez, vi medo nos olhos de Rodrigo.

“Não escolha um estranho em vez do seu filho.”

Teresa caminhou para frente na chuva.

“Mariana não é uma estranha. Ela é a esposa do seu irmão e a mãe do seu sobrinho.” Você transformou sua família em um negócio.

Rodrigo olhou para a porta, como se procurasse uma saída.

“Me dê o pen drive.”

“Mateo primeiro”, repeti.

Então, o homem que vigiava o menino recebeu uma mensagem e começou a se afastar. Lá fora, ouvia-se o ronco de vários caminhões. Rodrigo percebeu que estava cercado.

Ele agarrou Mateo pelo ombro.

“Eles me armaram uma cilada!”

Meu filho reagiu como eu o havia ensinado: abaixou-se, empurrou a cadeira contra as pernas de Rodrigo e correu em minha direção. Eu o abracei com tanta força que ambos caímos no chão molhado.

“Polícia! Ninguém se mexa!”

Luzes inundaram o galpão. O acompanhante de Rodrigo levantou as mãos. Rodrigo não tentou correr. Ele apenas olhou para Teresa enquanto os policiais o algemavam.

“Mãe, por quê?”

Ela chorou sem se aproximar. “Porque ainda quero me lembrar de que você já foi meu filho.”

Mateo enterrou o rosto no meu pescoço. Eu podia sentir o coração dele batendo contra o meu. Naquele momento, entendi que nenhuma herança, nenhuma empresa e nenhum sobrenome valiam o que aquele abraço podia me oferecer.

As semanas seguintes foram dolorosas. A promotoria fez buscas em escritórios e armazéns da Transportes Salgado. Encontraram contratos fraudulentos, notas fiscais falsas, contas ligadas à Ruta del Golfo e documentos usados ​​para desviar milhões de pesos. César Paredes testemunhou que Rodrigo o havia forçado a falsificar as demonstrações financeiras e que planejava incriminá-lo se tudo viesse à tona.

O mecânico Armando Cruz confessou ter recebido dinheiro para adulterar os freios do caminhão de Daniel. Ele jurou que Rodrigo lhe dissera que só queria causar uma pequena falha para assustá-lo. No entanto, as mensagens recuperadas revelaram outra coisa: Rodrigo perguntou sobre o trecho menos monitorado da estrada, verificou a previsão de chuva e exigiu que o veículo não conseguisse parar em uma descida. O envenenamento de Dom Ernesto também foi revisto. Uma câmera no país.

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