Parte 1: Isaiah Mitchell acordava todas as manhãs antes do amanhecer, não por disciplina, mas porque o sono já não lhe fazia bem.
Seu terraço tinha vista para o Lago Michigan, e em manhãs claras a água captava a luz de forma tão perfeita que parecia menos um lago e mais uma folha de ouro martelada.
Outras pessoas adoravam a vista.
Os hóspedes comentavam, os investidores admiravam e as mulheres com quem ele saía fotografavam.
Isaiah raramente olhava para ela por mais de um segundo.
Às seis horas, ele já estava vestido, já se movimentando, já respondendo a e-mails de uma assistente que conhecia sua agenda melhor do que ele próprio.
A máquina de expresso na cozinha custou sete mil dólares e fazia um café melhor do que qualquer cafeteria da cidade.
Ele apertava o botão, ouvia um leve zumbido mecânico e se afastava antes de terminar o café.
Era assim que ele lidava com a maioria das coisas que deveriam lhe dar prazer.
Ele as iniciava.
Ele as adquiria.
Elas as deixavam intocadas.
Seu apartamento era impecável, mais perturbador do que impressionante.
Fotografias são proibidas.
Lembrancinhas não são permitidas.
Não há diplomas emoldurados.
Nenhum registro criminal visível.
Quarenta ternos sob medida pendiam dentro de um guarda-roupa retroiluminado em tons de cinza, azul-marinho e preto.
As cadeiras de couro em seu escritório eram caras o suficiente para gerar discussões e confortáveis o suficiente para embalar qualquer um para dormir, mas ele só se sentava em uma delas o tempo suficiente para assinar documentos.
Todas as superfícies brilhavam.
Todos os cômodos ecoavam.
Apenas um objeto no sótão parecia importar.
Dentro de uma gaveta trancada em seu escritório havia uma pequena moldura de vidro forrada com veludo preto.
Dentro dela, havia metade de uma fita vermelha, desbotada quase a ponto de enferrujar, com as bordas desfiadas e a trama frouxa devido à idade.
Os especialistas em conservação lhe disseram que tecidos antigos se deterioram naturalmente, não importa o quão cuidadosamente sejam armazenados.
De qualquer forma, ele já os havia pago.
Ele havia pago por controle de temperatura, vidros resistentes a raios UV, tratamentos de conservação — tudo o que o dinheiro podia comprar.
Mas havia limites para o que o dinheiro podia economizar.
Ele sabia disso melhor do que ninguém.
Ele assistia à gravação todas as manhãs.
Onde você está?
Ele nunca fez a pergunta em voz alta.
Não precisava.
Por si só, aquilo moldou a arquitetura de sua vida.
Aos nove anos, antes que qualquer coisa importasse, antes que sua empresa tivesse um conselho administrativo, uma avaliação ou um prédio com seu nome no contrato de aluguel, Isaiah era o menino branco e magro que ficava parado perto da cerca de arame da Escola Primária Lincoln, no lado sul de Chicago.
Sua mãe, Colleen, trabalhava em dois empregos temporários de limpeza depois que foram despejados de um apartamento de um quarto que não podiam mais pagar.
Por vários meses, a vida se manteve à tona com viagens de ônibus, sofás emprestados e uma mochila com o zíper quebrado.
Ele não estava matriculado na Lincoln.
Eles não tinham endereço fixo, a documentação estava em ordem e não havia como atender aos requisitos da escola para pessoas cujas vidas já estavam desmoronando.
Algumas tardes, Colleen o deixava perto do pátio da escola porque era mais seguro do que deixá-lo sozinho no internato durante o check-in, e porque ela acreditava que as crianças se sentiam menos sozinhas em meio ao barulho dos outros.
Isaiah ficou parado junto à cerca, observando um mundo que parecia organizado, previsível e bem abastecido.
Ele havia aprendido a não olhar para a comida, mas a fome desvia o olhar antes que o orgulho possa impedi-lo.
Victoria Hayes o viu em uma terça-feira ventosa de outubro.