Marisol ajudou Dom Benito a se levantar. O velho, limpando o sangue do lábio, olhou para ela com profunda gratidão. “Temos que ir”, sussurrou. “Dona Carmelita me fez jurar que ninguém, a não ser uma alma pura, entraria naquele lugar. O segredo não vale seu peso em ouro.”
Com Solovino mancando atrás deles, Marisol e Dom Benito seguiram o rastro de galhos achatados que Ricardo havia deixado. Caminharam por cerca de 15 minutos entre pinheiros gigantes, samambaias úmidas e o canto ensurdecedor das cigarras. O cheiro de pinho e terra úmida impregnava o ar. Finalmente, chegaram a uma clareira escondida no coração da floresta.
Lá estava. Não era uma mina de ouro, nem um cofre de banco. Era uma pequena capela construída inteiramente de pedra vulcânica negra e adobe, coberta de trepadeiras com flores de buganvílias que pareciam se espalhar pelas paredes. A porta era de carvalho grosso e pesado, selada com um enorme cadeado enferrujado pelo tempo.
Ricardo já estava lá, martelando freneticamente o cadeado com uma picareta. “Saiam daqui!” gritou ele ao vê-los chegar, com os olhos vermelhos de raiva. “Tudo isso é meu! Minha herança!” Com um golpe final e preciso, o ferro velho cedeu e o cadeado caiu no chão. Ricardo chutou a porta de carvalho, que se abriu com um rangido fantasmagórico, levantando poeira acumulada desde 1951.
Ricardo correu para dentro, procurando por baús, moedas, joias. Marisol e Dom Benito pararam na porta. O interior da pequena capela era iluminado por um raio de sol que entrava por uma claraboia no teto. Não havia ouro. Nenhuma riqueza material.
No centro da sala, sobre um pequeno altar de pedra, repousava uma caixa de cedro primorosamente esculpida, e as paredes estavam completamente cobertas de fotografias antigas, cartas emolduradas e pequenos pertences pessoais. Ricardo abriu a caixa de madeira em desespero, espalhando seu conteúdo pelo chão. Eram documentos: centenas de folhas de papel velho, diários com a caligrafia cursiva de Dona Carmelita e um envelope grosso lacrado com cera vermelha.
“Onde está o dinheiro?!” gritou Ricardo, chutando o altar de pedra, a respiração ofegante e o rosto contorcido de frustração.
Marisol aproximou-se lentamente, ignorando os gritos do homem. Abaixou-se e pegou o envelope lacrado. O remetente indicava que se tratava de um documento autenticado em cartório, registrado legalmente na cidade em 1998. Ela rompeu o lacre e retirou o documento. Ao examinar as linhas formais da escritura pública, seu coração disparou.
“Não há ouro, Ricardo”, disse Marisol, a voz ressoando com frieza e autoridade implacáveis no recinto de pedra. “Mas há uma herança.”
Ricardo virou-se bruscamente. “Do que você está falando, sua mulher estúpida? Me dê!” Ele tentou arrancar o testamento dela, mas Solovino, apesar do ferimento, saltou na frente de Marisol, soltando um rosnado gutural tão ameaçador que Ricardo recuou instintivamente.
“Este é o testamento de sua mãe, legalizado e autenticado pelo Estado”, leu Marisol em voz alta, certificando-se de que cada palavra atingisse o ego do homem. “Ele declara claramente que, devido aos abusos físicos e psicológicos que você, Ricardo, cometeu contra ela em sua juventude, você está absolutamente deserdado de todos os bens terrenos.”
O rosto de Ricardo empalideceu. Os capangas, que haviam chegado à clareira na mata atraídos pelos gritos, escutavam da porta.
Marisol continuou a ler e, enquanto lia, lágrimas começaram a escorrer pelas bochechas enrugadas de Dom Benito. “Toda a propriedade — a terra, a casa e tudo o que nela existe — torna-se propriedade única e exclusiva do Sr. Benito Juárez, o único homem que me tratou com respeito e dignidade. Este documento estipula que qualquer tentativa de Ricardo de vender a propriedade constitui fraude documental, punível por lei.”
A revelação atingiu a floresta como um soco no estômago. O silêncio se fez. Ricardo havia vendido terras que não lhe pertenciam. O contrato assinado por Marisol era a prova do crime federal de fraude, e Ricardo sabia disso. Ao vender a fazenda para Marisol, ele não só não havia obtido nenhum ganho legal, como também havia assinado sua própria sentença de morte.
“Esta capela”, murmurou Dom Benito, aproximando-se das paredes e tocando as fotografias de mulheres que adornavam o cômodo. “Dona Carmelita construiu isto como um santuário. Um santuário para todas as mulheres da sua família que sofreram em silêncio, que foram espancadas, que foram silenciadas por homens como você, Ricardo. Esta terra tem memória. A terra escolhe, e ela sabia que este documento só deveria ser encontrado quando a pessoa certa viesse defendê-lo.”
Os bandidos, percebendo que estavam apoiando um vigarista prestes a ser preso, baixaram as armas. “Não temos nada a ver com isso, chefe”, disse o líder do grupo, dando um sinal de reprovaçãoUm passo para trás. “Você está por sua conta.” Os quatro homens se viraram e caminharam rapidamente em direção aos caminhões, deixando Ricardo completamente sozinho, exposto e sem poder.