PARTE 1
Quando Marisol assinou a escritura daquele rancho esquecido no meio da Serra Norte de Puebla, pensou que estava comprando silêncio. Pensou que estava comprando a paz que lhe fora negada por tanto tempo. Depois de 15 anos vivendo em constante terror, andando na ponta dos pés dentro de casa para não provocar a ira do marido, aos 42 anos, ela só queria um lugar no mundo onde ninguém pudesse encontrá-la.
O rancho ficava a 12 quilômetros do “Pueblo Mágico” (Cidade Mágica) mais próximo. O acesso era por uma estrada de terra vermelha, sem sinal de celular e sem um único vizinho à vista. A casa era uma construção antiga, daquelas com grossas paredes de adobe que protegiam do frio e um telhado de telhas de barro que já começava a se deformar sob o peso dos anos. Ervas daninhas cobriam o quintal, e um imenso abacateiro projetava uma sombra pesada e melancólica sobre a varanda.
Foi no primeiro dia, enquanto descarregava as malas da caminhonete, que ela percebeu que algo estava errado. Uma das janelas de madeira, que ela mesma havia trancado durante a visita com o corretor de imóveis, estava entreaberta. Era apenas uma fresta de 5 centímetros, mas o suficiente para causar um arrepio na espinha de uma mulher que havia sobrevivido ao que ela havia sobrevivido.
Dentro da casa, o silêncio tinha uma textura diferente. Na cozinha, sobre uma velha mesa rústica de madeira, havia uma pequena panela de barro com água. Ao lado da panela, dois pedaços de pão de milho, cuidadosamente embrulhados em um guardanapo de pano bordado à mão. Na chapa do fogão a lenha, as brasas ainda brilhavam em tons de laranja, irradiando um calor que denunciava uma presença recente. Alguém estivera ali. Alguém morava ali.
Marisol congelou. Seu coração batia forte e descomunalmente. Ela vasculhou cada canto escuro da casa. Foi então, ao espiar pela porta dos fundos que dava para o pátio, que viu uma sombra. Entre as espigas de milho seco e o muro de pedra, havia um homem. Marisol não gritou. Mulheres que escapam do inferno aprendem a não gritar; aprendem a calcular.
Lentamente, ela se aproximou do pátio. O luar iluminava um velho, de uns oitenta anos, usando um chapéu de palha gasto e um poncho de lã. Ele segurava uma cabaça d’água e bebia com uma lentidão própria de quem já não tem pressa de viver. A seus pés, um cachorro sem raça definida, um daqueles que chamam de Solovino nas aldeias, dormia tranquilamente. O velho olhou para ela com olhos profundos e cansados.
“Eu sei que a senhora comprou a propriedade”, disse o homem com voz rouca. “Meu nome é Dom Benito. Estou aqui há 43 anos. Esta terra pertencia a Dona Carmelita, a bondosa senhora. Quando ela morreu, o filho dela me deixou ficar porque não se importava com a fazenda. Se a senhora me permitir, ficarei no celeiro e cuidarei da terra.”
“Eu sei que a senhora comprou a propriedade”, disse o homem com voz rouca. “Meu nome é Dom Benito. Estou aqui há 43 anos. Esta terra pertencia a Dona Carmelita, a bondosa senhora. Quando ela morreu, o filho dela me deixou ficar porque não se importava com a fazenda. Se a senhora permitir, ficarei no celeiro e cuidarei da terra.”
“Eu sei que a senhora comprou a propriedade”, disse o homem com voz rouca. Marisol, reconhecendo nos olhos do velho a mesma sensação de abandono que sentia, assentiu com a cabeça. Na manhã seguinte, Dom Benito a levou ao velho celeiro. Lá, desenhado com carvão e argila vermelha na parede de adobe, havia um imenso mapa da fazenda. No centro da mata, o mapa mostrava uma estrutura estranha e escondida, cercada por frases escritas à mão. Uma delas dizia: “Esta terra escolhe quem fica e nunca erra”.
Eles estavam prestes a se aventurar na mata para descobrir o que era aquela estrutura misteriosa quando o rugido estrondoso de três caminhonetes pretas quebrou a paz do lugar. Os veículos derraparam violentamente pelo pátio, levantando nuvens de poeira. Um homem de terno impecável saiu da primeira caminhonete, seu sorriso torto transbordando arrogância, seguido por quatro homens armados com porretes e facões. Marisol reconheceu o rosto do homem pelas fotografias que o corretor de imóveis lhe mostrara: era Ricardo, filho biológico de Dona Carmelita, o mesmo homem que lhe vendera a fazenda.
O homem caminhou em direção a eles, chutando o pequeno vaso de barro na varanda até que se estilhaçou. “Negócio cancelado”, gritou Ricardo, cuspindo no chão. “Tirem essa mulher daqui e joguem esse velho inútil na rua.” Marisol sentiu o ar lhe faltar. Ela não conseguia acreditar no que estava prestes a acontecer…
PARTE 2
O terror que Marisol tentara deixar para trás a 800 quilômetros de distância, na capital, parecia tê-la alcançado na forma de outro homem violento. Ricardo estava diante deles, o rosto ruborizado pela ganância e pela fúria. Os quatro capangas que o acompanhavam se espalharam pelo pátio, cercando Marisol, Dom Benito e Solovino, o cachorro, que agora rosnava e mostrava os dentes, com os pelos eriçados.
“Você assinou um contrato”, Marisol conseguiu dizer, com a voz trêmula, instintivamente dando um passo para trás. Era o mesmo reflexo condicionado que desenvolvera durante 15 anos de um casamento abusivo: encolher-se, ceder, evitar o golpe.
“Esse contrato não vale nada”, disse ele.
Ricardo tirou um maço de notas do bolso do paletó e jogou-o na poeira aos pés de Marisol. “Aqui está o seu maldito dinheiro. Acabei de descobrir o que minha mãe, aquela louca da Dona Carmelita, escondeu nas ruínas da floresta. Aquele velho patife”, disse ele, apontando para Dom Benito com desgosto, “provavelmente já lhe contou. Minha mãe era delirante, mas sabia exatamente como esconder o ouro da família. Então saia da minha propriedade nos próximos dois minutos, ou meus homens vão garantir que você desapareça nas montanhas.”
Dom Benito não recuou. Aos 80 anos, o velho endireitou as costas o máximo que sua coluna cansada permitiu. Parou diante de Marisol, colocando-se entre ela e os capangas, segurando firme seu velho facão de trabalho. “Esta terra não é mais sua, Ricardo”, disse o velho, sua voz trovejando como um trovão sob o céu claro. “Sua mãe sabia que tipo de monstro você era. É por isso que você foi embora há 30 anos e nunca mais voltou, nem mesmo quando ela deu seu último suspiro. Você não vai pisar nesta mulher. Agora ela é a dona.”
Ricardo soltou uma risada venenosa e empurrou o velho com violência. Dom Benito caiu no chão de terra batida, levantando uma nuvem de poeira. Solovino latiu furiosamente e avançou, mas um dos homens o chutou nas costelas, fazendo o animal gemer de dor perto do abacateiro.
Ao ver o velho no chão, algo dentro de Marisol se quebrou. Não era medo, mas a corrente invisível que a mantivera prisioneira por toda a sua vida adulta. Ela viu em Ricardo o mesmo olhar sádico de seu ex-marido. Ela havia testemunhado o mesmo abuso de poder, a mesma crueldade impiedosa contra os fracos. Ela fugira para evitar ser vítima novamente, e de repente entendeu que fugir não acabava com os monstros; apenas lhes dava a oportunidade de atacar outra pessoa. “Não o toquem!” gritou Marisol. Sua voz já não tremia. Havia uma força vulcânica em suas palavras. Ela se agachou, pegou uma pesada pedra de rio na beira do jardim e parou diante de Dom Benito, olhando Ricardo diretamente nos olhos. “O rancho está em meu nome. O registro público de imóveis já tem minha assinatura. Se você der mais um passo, juro que o mato aqui mesmo, e se seus homens me tocarem, as autoridades federais saberão que o poderoso empresário Ricardo veio invadir terras nas montanhas.”
Ricardo hesitou por um segundo, surpreso com a resistência de uma mulher que considerava frágil, mas sua ganância era muito maior que sua sanidade. “Amarrem-nos”, ordenou aos seus homens. “E tragam as picaretas. Vamos para aquela ruína maldita na floresta.”
Os capangas, porém, hesitaram. O tom de Marisol e a menção às autoridades federais fizeram com que trocassem olhares nervosos. Eram capangas de quinta categoria; Eles não queriam se envolver em um homicídio ou em um problema federal por causa de um pedaço de terra agrícola. Ricardo, enfurecido com a covardia de seus funcionários, pegou uma picareta da carroceria de um dos caminhões. “Eu mesmo farei isso!”, gritou, e começou a caminhar rapidamente para o meio da mata, guiado por suas memórias de infância até o local escondido.