Meu pai me chamou ao seu escritório em março de 1856, um mês depois da recusa de Foster. Um mês depois de eu ter deixado de acreditar que um dia seria diferente por conta própria.
“Nenhum homem branco vai se casar com você”, disse ele sem rodeios. “Essa é a realidade. Mas você precisa de proteção. Quando eu morrer, esta herança irá para o seu primo Robert. Ele venderá tudo, lhe dará uma ninharia e a deixará à mercê de parentes distantes que não a querem.”
“Então me deixe a herança”, eu disse, embora soubesse que era impossível.
“A lei da Virgínia não permite. Mulheres não podem herdar independentemente, especialmente não…” Ele gesticulou para minha cadeira de rodas, incapaz de terminar a frase. “Então, o que você sugere?”
Josiah é o homem mais forte desta propriedade. Ele é inteligente. Sim, eu sei que ele lê escondido. Não se surpreenda. Ele é saudável, capaz e, pelo que ouvi dizer, gentil apesar do seu tamanho. Ele não vai te abandonar porque é legalmente obrigado a ficar. Ele vai te proteger, te sustentar e cuidar de você.
A lógica era aterradora e impecável.
“Você perguntou a ele?” insisti.
“Ainda não. Queria te contar primeiro.”
“E se eu recusar?”
Naquele instante, o rosto do meu pai envelheceu dez anos. “Então vou continuar procurando um marido branco, nós dois saberemos que vou fracassar, e depois que eu morrer, você passará o resto da vida em pensões, dependendo da caridade de parentes que te consideram um fardo.”
Ele estava certo. Eu odiava que ele estivesse certo.
“Posso me encontrar com ele? Converse com ele antes de tomar essa decisão, pelo bem de vocês dois.”
“Claro. Amanhã.”
Na manhã seguinte, Josiah foi trazido para casa. Eu estava perto da janela da sala quando ouvi passos pesados no corredor. A porta se abriu. Meu pai entrou, e então Josiah se abaixou — realmente se abaixou — para passar pela porta.
Meu Deus, ele era enorme. Um metro e noventa e cinco de puro músculo e curvas, seus ombros mal tocando o corpo, suas mãos marcadas por queimaduras de forja que pareciam capazes de quebrar pedra. Seu rosto curtido pelo tempo e sua barba percorreram o cômodo sem se deter em mim. Ele estava de pé com a cabeça levemente baixa, as mãos juntas, a postura de um escravo na casa de um homem branco.
Aquele bruto combinava perfeitamente com ele. Parecia capaz de demolir a casa com as próprias mãos. Mas então meu pai falou.
“Josiah, esta é minha filha, Elellaner.”
Os olhos de Josiah repousaram em mim por meio segundo, depois voltaram para o chão. “Sim, senhor.” Sua voz era surpreendentemente suave, profunda, porém delicada, quase gentil.
“Ellaner, expliquei a situação para Josiah. Ele entendeu que seria responsável por seus cuidados.”
Consegui falar, embora estivesse tremendo. “Josiah, você entende o que meu pai está propondo?”
Outro olhar rápido para mim. “Sim, senhorita. Serei seu marido, irei protegê-la, irei ajudá-la.”
“E você concordou com isso?”
Ele parecia confuso, como se a ideia de que seu consentimento pudesse importar fosse estranha para ele. “O coronel disse que eu devo, senhorita.”
“Mas você realmente quer isso?”
A pergunta o pegou de surpresa. Nossos olhares se encontraram. Castanhos escuros, surpreendentemente gentis para um rosto tão temível. “Eu… eu não sei o que quero, senhorita. Sou um escravo. Normalmente, o que eu quero não importa.”
A honestidade era brutal e implacável. Meu pai pigarreou. “Talvez vocês devam conversar em particular. Estarei em meu escritório.”
Ele saiu, fechou a porta e me deixou sozinha com um escravo de quase dois metros de altura que supostamente era meu marido. Nenhum de nós falou por um tempo que pareceu uma eternidade. “Gostaria de se sentar?”, perguntei finalmente, apontando para a cadeira à sua frente.
Josiah olhou para o delicado móvel com suas almofadas bordadas e, em seguida, para sua figura imponente. “Acho que essa cadeira não me aguentaria, senhorita.”
“Então, o sofá.”
Ele sentou-se cuidadosamente na beirada. Mesmo sentado, era mais alto do que eu. Suas mãos repousavam sobre os joelhos, cada dedo como um pequeno porrete, marcado por cicatrizes e calos.
“Tem medo de mim, senhorita?”
“Deveria ter?”
“Não, senhorita. Eu jamais a machucaria. Juro.”
“Dizem que você é o bruto.”
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