Hannah Dawson apertou a alça de metal com força e puxou novamente. A bomba rangeu antes de um jato de água fria atingir o balde, respingando em seu pulso. Ela fez uma careta com o frio, mas depois sorriu levemente. Era o mesmo som que ouvia todas as manhãs desde criança, tão constante quanto a voz da mãe chamando-a da cozinha.
“Não se esforce, Hannah. Você vai machucar as costas de novo”, disse Agnes Dawson, com voz firme e autoritária, mas não rude.
“Estou bem, mãe”, respondeu Hannah, com a voz ecoando no ar calmo da manhã.
Ela carregou o balde pesado até a varanda, com cuidado para não derrubá-lo. O assoalho rangeu suavemente sob seus pés. Lá dentro, a casa cheirava a sabão e café fresco. Agnes estava perto do fogão, envolta em seu roupão azul, com os cabelos grisalhos presos em um coque. Seu rosto carregava as marcas de anos de trabalho: determinado, disciplinado, como se forjado pela tenacidade e pelo amor.
“Não se esforce, Hannah. “Coloque a água na pia”, disse Agnes sem olhar. “E não se esqueça de alimentar os coelhos antes de sair.”
“Já alimentei”, respondeu Hannah.
“Eles estão bem. Verifique novamente depois do café da manhã. Às vezes, eles derrubam a comida das tigelas.”
Todos os dias começavam assim. Uma repetição de tarefas, instruções e uma resistência silenciosa. Hannah colocou água em uma panela, lavou as mãos e sentou-se à mesa perto da janela. As cortinas eram finas, deixando entrar uma luz cinza suave que iluminava as fotografias penduradas na parede. Uma jovem Agnes, ao lado de seu falecido marido na mesma varanda, ambos sorrindo sob o sol do Oregon.
Hannah quase nunca mais olhava para aquela foto. Ela a lembrava de que, outrora, pessoas haviam rido naquela casa.
O café da manhã transcorreu em silêncio, quebrado apenas pelo tilintar das colheres contra a porcelana. Agnes comentava de vez em quando que as galinhas não estavam botando muitos ovos, ou que o filho do vizinho tinha deixado o portão aberto de novo, mas a mente de Hannah divagava. Ela imaginava a rodovia se estendendo além da cidade, a fila de caminhões indo para o oeste, a liberdade da distância.