Respirei fundo.
“Não está à venda.”
A expressão dele mudou.
“Escute, Sra. Maria. Essa casa pertence à nossa família desde antes de você nascer.”
“E mesmo assim, seu pai decidiu deixá-la para mim.”
Raul deu um passo em direção à varanda.
“Meu pai não estava bem da cabeça.”
Senti um calor subir ao meu peito.
“Seu pai se lembrava exatamente de quem o acompanhou ao hospital quando vocês não atendiam o telefone.”
“Você não sabe do que está falando.”
“Claro que sei. Eu estava lá.”
Permanecemos em silêncio. O lago parecia prender a respiração.
Raul cerrou os dentes.
“Isso não vai terminar aqui.”
Ele entrou no carro e foi embora, levantando uma nuvem de poeira.
Pensei que fosse apenas uma ameaça vazia.
Dois dias depois, o processo chegou.
A Batalha
Os filhos de Dom Aurélio contestaram o testamento. Alegaram manipulação, quebra de confiança e “coerção”. Uma forma educada de dizer que um pobre vizinho não poderia receber nada sem enganar o velho.
Ao ler o documento, minhas mãos tremeram.
Senti-me como aquela mulher recém-separada, com duas malas e nenhuma certeza.
Mas então encontrei algo inesperado. No fundo de uma cômoda da casa, havia um caderno azul. As capas estavam gastas e as páginas cheiravam a mofo.
Era o diário de Dom Aurélio.
Meses e meses de anotações curtas:
“María me levou ao cardiologista.”
“Hoje ela voltou com sopa porque não estava com vontade de cozinhar.”
“Ela ligou três vezes para ter certeza de que eu tinha chegado bem em casa do hospital.”
“Raúl cancelou outra visita.”
“Que estranho sentir-se cuidada sem ter que pedir.”
A última anotação era de duas semanas antes de sua morte:
“Se meus filhos algum dia lerem isto, quero que saibam que não castigo ninguém. Apenas agradeço àqueles que estiveram aqui.”
Chorei ao ler aquelas páginas.
O Julgamento
No dia da audiência, levei o caderno comigo.
Os filhos de Dom Aurélio chegaram com advogados caros. Eu estava com uma pasta plástica e um terno velho.
Pensei que me despedaçariam.
Até que o juiz abriu o diário.
O tribunal ficou em silêncio enquanto ele lia algumas anotações em voz alta.
Então, ele olhou para Raúl.
“Quando foi a última vez que você visitou seu pai antes de ele morrer?”
Raúl hesitou.
“Não me lembro da data exata.”
Veja o resto na próxima página.