Apertei o volante com tanta força que meus dedos doíam.
E disse baixinho:
“Acabou.”
Naquela noite, não fui atrás dele.
Chamei uma ambulância.
Quando cheguei em casa, ele me encarou da maca.
“Onde você estava? Eu estava te esperando.”
“Ocupada.”
Ele franziu a testa.
“Você trouxe meu pão?”
Olhei para ele.
Pela primeira vez em cinco anos, eu o olhei de verdade.
Não vi mais o homem doente.
Vi o monstro confortável.
“Eu esqueci.”
Seu rosto mudou.
“Como assim, você esqueceu?”
Sem resistência.
Ajeitei seu travesseiro.
Cubriquei suas pernas.
Dei-lhe os comprimidos.
Fiz tudo igual.
Mas por dentro, eu não era mais a mesma.
No dia seguinte, comecei.
Primeiro, examinei os papéis.
Faturas.
Contas.
Escrituras.
Recibos.
Contratos.
Tudo o que ele achava que eu não entendia porque “eu só servia para cuidar dele”.
Encontrei coisas.
Muitas.
Uma apólice de seguro de vida.
Uma conta secreta.
Um testamento onde meu nome não constava, nem por engano.
E uma pasta com o nome de Tomás.
Dentro dela, depósitos.
Mensais.
Grandes.
Enquanto eu contava pesos para comprar gasolina, Esteban mandava dinheiro para o filho comprar motos, tênis e viagens para Cancún.
Eu ri.
Um riso seco.
Não de dor.
De nojo.
Naquela noite, enquanto eu lhe dava o jantar, Esteban me perguntou:
“Por que você está tão quieta?”
Limpei o canto da boca dele com um guardanapo.
“Estou cansada.”
“Bem, descanse quando eu dormir.”
Ele disse isso sem a menor cerimônia.
Como um chefe.
Como um dono.
Eu sorri.
“Sim, Esteban.”
Ele não percebeu nada.
Homens como ele nunca percebem quando uma mulher para de amar.
Eles só percebem quando ela para de obedecer.
Por duas semanas, continuei como sempre.
Fiz sopa para ele.
Troquei os lençóis.
Levei-o à terapia.
Sorri para a enfermeira.
E à noite, enquanto ele dormia, eu fazia cópias.
Gravações de áudio.
Extratos bancários.
Mensagens.
Gravei Tomás me dizendo:
“Quando meu pai morrer, você vai sair desta casa.”
Gravei a resposta de Esteban:
“Deixe-a ir. Enquanto ela me for útil, pode ficar.”
Contratei uma advogada.
Uma boa.
Daquelas que não apenas te dão tapinhas nas costas, mas te abrem os olhos.
Quando coloquei tudo na mesa dela, ela simplesmente disse:
“Brenda, seu marido não precisa de uma enfermeira. Ele precisa de um processo.”
Naquela sexta-feira, ele chegou cedo em casa.
Esteban estava na sala, falando ao telefone com Tomás.
Ele não me ouviu entrar.
“Não se preocupe”, ele dizia. “Assim que eu sair, a mala. A casa é sua.”
Fiquei atrás dele.
E, pela primeira vez em cinco anos, não senti tristeza.
Senti paz.
Desliguei o liquidificador que fazia barulho na cozinha.
Esteban se virou.
Seu sorriso desapareceu.
—Há quanto tempo você está aí?
PARTE 2
—Desde que “me serve”.
Esteban congelou.
O telefone ainda estava pressionado contra sua orelha. Do outro lado da linha, Tomás perguntava:
—Pai? O que aconteceu?
Caminhei até a mesa, coloquei minha bolsa no chão e olhei para meu marido.
Para aquele homem de quem eu tomava banho há cinco anos.
Para aquele homem que me viu parar de comprar roupas, parar de sair, parar de dormir, parar de existir.
—Desliga—eu disse a ele.
Esteban tentou sorrir.
—Brenda, você está entendendo errado.
—Desliga.
Não levantei a voz.
Foi isso que o assustou.
Tomás continuou falando.
—Pai, a senhora está aí?
Esteban desligou.
—Não sei o que você ouviu, mas—
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