A cozinha onde eu comia em pé porque ele me chamava antes que eu pudesse sentar.
O banheiro adaptado que ele limpava todos os dias.
As paredes estavam cobertas de fotos do nosso casamento, em que eu aparecia de vestido branco, meu rosto ainda alheio ao que me aguardava.
“Não, Esteban”, eu disse. “Não estou mais aqui.” Naquela noite, dormi no meu quarto com a porta fechada pela primeira vez.
Não dormi bem.
O corpo não aprende a ser livre da noite para o dia.
Acordei várias vezes na esperança de ouvir sua voz.
“Brenda.”
“Brenda, água.”
“Brenda, vire-se.”
“Brenda, não seja inútil.”
Mas Claudia estava no quarto.
E cada vez que a vontade de levantar me dominava, eu agarrava o travesseiro e repetia para mim mesma:
Eu não sou cruel.
Eu estou viva.
Na manhã seguinte, Esteban não falou comigo.
Ótimo.
Preparei um café, esquentei um pão doce que havia comprado e sentei-me à mesa.
A primeira mordida tinha gosto de culpa.
A segunda, de vitória.
Às dez horas em ponto, minha advogada, Rebeca Salas, chegou.
Ela entrou usando sapatos de salto baixo, carregando uma pasta preta e com um olhar que inspirava respeito.
“Bom dia.”
Esteban fingiu dignidade.
“Não falarei sem a minha advogada.”
“Perfeito”, disse ele. “Então, entregarei a notificação.”
Tomás também chegou.
Claro.
Os abutres sempre reconhecem o cheiro da perda. Rebeca tirou alguns documentos.
“Primeiro, solicitaremos a anulação da procuração falsificada pela Sra. Brenda. Segundo, exigiremos uma prestação de contas das apólices de seguro, da previdência e das contas ocultas supostamente destinadas a despesas médicas. Terceiro, iniciaremos uma ação judicial por abuso econômico, psicológico e financeiro.”
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