Parte 1
“Um brinde à mulher que realmente me entende”, disse Ricardo Del Valle, erguendo seu copo diante de 300 convidados, enquanto sua esposa grávida o observava a dez passos de distância.
Valéria não se moveu.
Estava grávida de seis meses, vestindo um vestido azul-marinho que mal disfarçava o tremor de suas mãos, e um sorriso forçado, pois todas as câmeras do salão estavam apontadas para eles. O baile anual da Fundação Del Valle acontecia em um elegante hotel no Paseo de la Reforma, com empresários, políticos, jornalistas e damas de Polanco que pressentiam o escândalo antes mesmo que acontecesse.
E naquela noite, o escândalo chegou nos braços de Camila Ríos.
Camila usava um vestido vermelho, tinha lábios perfeitos e exalava uma confiança implacável. Ela não caminhava atrás de Ricardo. Nem ao lado dele. Estava em seu braço como se já tivesse tomado o lugar de Valeria.
Os murmúrios começaram como um zumbido.
“É ela?”
“A amante?”
“Mas a Valéria está grávida…”
Ricardo sorriu como se nada estivesse errado. Como se humilhar a esposa diante de metade do México fizesse parte da diversão da noite.
Valéria sentiu um leve chute na barriga. Abaixou a mão, respirou fundo e apertou a bolsa prateada. Dentro, carregava algo que Ricardo desconhecia: cópias de transferências bancárias, recibos de joias, extratos bancários e um pen drive que encontrara três dias antes, escondido na gaveta da estante.
A princípio, pensou que Ricardo a estivesse traindo.
Depois, percebeu que ele também estava roubando.
A Fundação Del Valle fora criada com o dinheiro de seu pai, Dom Ernesto Luján, um homem que construíra hospitais em Puebla, bolsas de estudo para meninas em Oaxaca e cozinhas comunitárias em Iztapalapa. Ricardo casara-se com Valéria falando sobre legado, família e construir algo juntos.
Agora, ele usou a herança para pagar o apartamento de Camila em Santa Fé, suas viagens para Cancún, suas bolsas de grife e até o aluguel de um SUV blindado.
Mas Valeria ainda não tinha tudo.
Ela precisava de mais uma prova.
Ricardo pegou o microfone e olhou para a plateia.
“A vida nos ensina que aqueles que estão conosco por obrigação nem sempre são os que realmente nos acompanham em espírito.”
Camila baixou o olhar, fingindo constrangimento.
Valéria sentiu algo dentro de si se quebrar silenciosamente.
Seu celular vibrou.
Era uma mensagem de Ricardo.
“Sorria. Não faça escândalo. Lembre-se de quem paga por tudo.”
Valéria leu a frase duas vezes.
Então, olhou para o marido.
Ricardo continuou falando sobre lealdade diante dos doadores, de mãos dadas com a amada.
Valéria colocou o copo intocado sobre a mesa, ajeitou a bolsa contra o peito e caminhou em direção à saída. Ninguém a deteve, mas todos a encaravam. Alguns com pena. Outros com curiosidade mórbida. Fotógrafos ergueram suas câmeras.
Ela não chorou.
Ela não gritou.
Ela simplesmente saiu.
Lá fora, o ar frio da manhã atingiu seu rosto. Seu motorista não estava lá. Ricardo havia ordenado que nenhum carro se movesse sem sua permissão.
Valéria entendeu então que ele não queria apenas humilhá-la. Ele queria prendê-la.
Ela começou a caminhar pela calçada, uma mão na barriga e a outra na bolsa. A meio quarteirão do hotel, parou em frente a um restaurante com fachada de vidro.
E lá os viu.
Ricardo e Camila estavam sentados em uma mesa reservada, rindo, com uma garrafa de vinho aberta. Ele acariciava seus dedos como se tivesse acabado de aliviar um fardo.
Valéria sentiu uma dor aguda e seca que lhe fez as pernas bambearem.
“Senhora, a senhora está bem?”, perguntou alguém.
Ela queria responder, mas tudo em que conseguia pensar era no seu bebê.
Antes de desmaiar, viu um homem se aproximar e cobri-la com o casaco.
Quando acordou, estava no banco de trás de um SUV preto, a caminho de um hospital particular em Lomas.
“Ela desmaiou”, disse o homem à sua frente. “Já chamaram a emergência.”
“Quem é você?”
“Esteban Arriaga.”
Valéria conhecia aquele nome. Empresário, dono de companhias aéreas privadas, hotéis e construtoras. Era amigo do seu pai.
“Não preciso de ajuda”, murmurou.
“Seu orgulho pode esperar. Seu filho não.”
No hospital, ouviu o coração do bebê bater. Rápido. Vivo. Firme.
E então chorou.
Não por Ricardo.
Não por Camila.
Chorou porque entendeu que não havia volta naquela noite.
Ao amanhecer, enquanto Ricardo dormia em uma suíte com sua amante, Valeria abriu a bolsa na frente de Esteban e tirou o pen drive.
“Preciso chegar a Monterrey antes das 9”, disse ela. “O presidente do conselho está lá.”
Esteban olhou para ela em silêncio.
“Meu avião sai de Toluca em uma hora.”
Mas quando Valeria chegou ao hangar, o rosto pálido e a barriga protegida por um casaco preto, Camila apareceu correndo entre os carros.
“Valeria, por favor! Não entre! Você não sabe o que está fazendo!”
Valeria parou aos pés da escada do jato.
Camila, descalça, com a maquiagem borrada e o vestido vermelho amassado, caiu de joelhos no concreto frio.
“Eu imploro… não arruine a minha vida.”
Valeria a encarou sem piscar.
E assim que a porta do avião começou a fechar, Camila gritou.