“Claro.” Ela olhou em volta da minha cozinha. “Eles checaram os documentos da casa ultimamente?”
“Os documentos da casa?”
“Com a sua saúde e tudo mais. As famílias precisam estar preparadas.”
“Preparadas para quê, Megan?”
O sorriso dela se desfez.
“Para qualquer coisa.”
Em vez de responder, coloquei a sopa dela na geladeira e disse a mim mesma que estava apenas cansada.
—
Duas noites depois, encontrei Ed sentado na garagem com as luzes apagadas.
“O que você está fazendo aqui, querida?”
“Pensando”, disse ele, enxugando o rosto.
“Em quê?”
Ele olhou para o chão. “Em estar sendo vigiado.”
O telefone dele tocou e ele o virou antes que eu pudesse ver a tela.
Os papéis do divórcio chegaram numa quinta-feira.
Ele entrou na cozinha vestindo o suéter azul que Susan lhe dera de presente de Natal. Seu rosto estava abatido.
“Precisamos conversar”, disse ele.
“Bem, converse enquanto eu mexo a comida.”
“Marilyn.”
Virei o rosto.
Ele deslizou uma pilha de papéis pela bancada da cozinha.
A princípio, não entendi. Minha mente se recusava a ler as palavras: “Petição. Dissolução. Casamento.”
“Ed, o que é isso?”
“Quero o divórcio.”
Minha colher escorregou da minha mão.
“Não.”
“Desculpe.”
“Você não pode se desculpar como se tivesse esbarrado no meu carrinho de compras no supermercado. De onde veio isso?”
Ele encarou os papéis. “Me apaixonei por outra pessoa.”
Ele deu uma risadinha, porque a frase era tão horrível que não tinha outro jeito de fazer sentido.
“Quarenta e dois anos, Ed. Quatro filhos. Seis netos.” “E você espera que eu acredite que encontrou uma nova vida entre uma sessão e outra na esteira?”
“É isso mesmo.” — Quem é ela?
Ele engoliu em seco. — Minha treinadora.
— Qual o nome dela?
— Tara.
Ele disse rápido demais, sem emoção. Como se alguém tivesse lhe dado o nome e mandado memorizá-lo.
Aproximei-me.
— Olhe nos meus olhos e diga que a ama.
Seus olhos permaneceram fixos no balcão.
— Ed.
— Preciso de espaço, Marilyn.
— Não foi isso que eu perguntei.
Suas mãos se agarraram à borda da ilha. Seus nós dos dedos ficaram brancos.
— Você não está agindo como um homem apaixonado, eu disse. — Você está agindo como um homem sendo forçado a ir embora.
Por um instante, pensei que meu marido fosse desabar.
Então ele empurrou os papéis de volta para mim.
— Vou embora hoje à noite.
— Hoje à noite?
“Encontrei um apartamento. Acredite em mim quando digo que nunca quis te magoar.”
Olhei para os papéis.
“Bem, você fez um trabalho estranho em evitar isso.”
Ele arrumou uma mala, mas deixou para trás seu suéter favorito, nosso álbum de fotos e a velha caneca de café que Caroline havia pintado.
Na porta, ele se virou.
“Paguei o seguro da casa para o ano todo.”
Encarei-o. “Homens que fogem com personal trainers não pagam o seguro da esposa antecipadamente.”
Ele recuou. Então foi embora.
Megan voltou três dias depois com uma travessa.
“Marilyn, sinto muito.”
“Mesmo?”
A mão dela parou. “Claro que sinto muito.”
“Quando você descobriu?”
“Descobriu o quê?”
“O divórcio.”
Os olhos dela se arregalaram. “Eu não sabia.”
“Então por que você perguntou ao Colin sobre a pensão alimentícia ontem?”
Ela piscou. “Ele te contou?”
“Não, Susan. Colin disse à irmã dele que você estava fazendo perguntas.”
Megan se recompôs rapidamente. “Estou preocupada com você. A saúde do Ed está complicada. E a situação financeira está um caos.”
“Meu casamento está um caos. Meu dinheiro não é da sua conta, Megan. Você se preocupa com meus netos.”
Ela apertou os lábios, depois suavizou a expressão novamente.
“Só estou tentando ajudar a família.”
—
Depois que ele saiu, abri um caderno e escrevi:
*Ed disse Tara rápido demais.*
*Megan perguntou sobre a casa.*
*Ed pagou o seguro adiantado.*
*Megan sabia demais.*
*Ed deixou o álbum de casamento.*
Então acrescentei:
*“Isso não parece algo que qualquer outra mulher faria.”*
—
Nas três semanas seguintes, mal comi e acordava procurando o homem que me fez sentir idiota por sentir saudades dele.
Mas continuei adicionando coisas ao caderno:
*Caroline disse que Ed a lembrou de verificar a luz da minha varanda.*
*Timothy disse que Ed parecia “estranho”.*
E quando Colin disse: “Talvez o papai só queira um novo começo”, Megan olhou para ele antes mesmo que ele falasse.
Então, uma noite, meu celular me alertou sobre algo terrível.
Era o relógio do Ed. Sua frequência cardíaca estava perigosamente baixa.
—
Por um segundo estúpido, fiquei olhando para a tela e pensei: *Eu não deveria mais saber disso.*
Liguei duas vezes. Ele não atendeu.
“Atende, Ed!”
Não liguei para as crianças primeiro. Não parei para perguntar se eu ainda tinha o direito de correr até ele.
Quarenta e dois anos me deram esse direito. Peguei meu casaco e chamei um táxi.
Eu sabia onde Ed morava porque as crianças tinham mencionado o endereço. A porta do apartamento não estava trancada.
Empurrei a porta e o encontrei no chão da cozinha, o rosto pálido, uma das mãos apertada contra o peito. O relógio em seu pulso piscava como uma pequena luz de alerta.
Ajoelhei-me ao lado dele. “Ed. Você consegue me ouvir?”
Ele moveu a boca, mas nenhum som saiu.