A esposa dele pegava o cartão e só lhe dava 20 pesos… Ele a chamava de mesquinha, até que abriu o envelope que ela havia escondido por 5 anos.

Era verdade.

“Pensei que, se te contasse antes, não daria certo”, continuou ela. “Então, preferi lidar com a sua raiva. Preferi que me chamasse de mesquinha, exagerada, controladora… do que nos ver pagando aluguel por mais 10 anos.”

Martín fechou os olhos.

Todas as lembranças voltaram à tona.

A vez em que gritou com ela porque ela só lhe deu 20 pesos para o ônibus.

A vez em que foi dormir sem jantar para castigá-la.

A vez em que seus amigos lhe disseram que Maribel “o tinha completamente na palma da mão”, e ele, amargurado, chegou a dizer a mesma coisa na cara dela.

A vez em que ela chorou baixinho na cozinha, e ele fingiu estar dormindo.

Como se sentia covarde.

Como se sentia insignificante.

Marbel tirou uma terceira folha de papel.

“E tem mais uma coisa.”

Martín olhou para cima, assustado.

“Mais?”

Ela assentiu. “Eu não paguei só pelo terreno. Também separei os materiais. Cimento, vergalhões, blocos de concreto. Dom Ernesto tem um primo que é pedreiro. Ele vai nos ajudar a construir dois cômodos e o banheiro primeiro. Não vai ficar bonito no começo. Talvez nem tenha piso. Mas vai ser nosso.”

Martín começou a chorar silenciosamente.

Não como nos filmes.

Não com dignidade.

Ele chorava com o rosto contorcido, os ombros caídos e a vergonha lhe apertando o peito.

Maribel se aproximou lentamente.

“Eu também queria tacos, Martín. Eu também queria sair. Eu também queria comprar sapatos novos, em vez de consertar os mesmos. Eu queria que você parasse de me olhar como se eu fosse sua inimiga.”

Ele soluçou.

“Me perdoe.”

“Mas todas as vezes que eu disse ‘não’, não foi porque eu não te amava. Foi porque eu estava guardando um pedacinho de parede, uma janela, uma porta.”

Martín apertou os papéis contra o peito.

“Eu pensei que você estava tentando me matar.”

Maribel balançou a cabeça.

“Eu estava guardando um lugar para você descansar sem medo.”

Essa frase o destruiu.

Porque ele sempre acreditou que precisava de dinheiro para se sentir homem.

Dinheiro para pagar uma rodada.

Dinheiro para não passar vergonha.

Dinheiro para que os outros não zombassem dele.

Mas Maribel, em silêncio e com seu caderno quadriculado, havia entendido algo mais profundo.

O que ele precisava não era de uma cerveja para esquecer a vida.

Ele precisava de uma vida da qual não quisesse escapar.

Martín se levantou e a abraçou.

A princípio, ela congelou.

Ela havia recebido tantas reclamações que até mesmo o afeto parecia suspeito.

Mas então ela encostou a testa no peito dele e chorou também.

Veja o resto na próxima página.

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