Meu marido me bateu porque eu me recusei a deixar a mãe dele entrar em casa. Depois, foi dormir em paz. Na manhã seguinte, colocou uma nécessaire de maquiagem ao lado do meu lábio rachado e disse: “Minha mãe vem almoçar. Cubra isso e sorria.” Mas quando voltou ao meio-dia, encontrou todas as suas roupas espalhadas pelo jardim… porque aquela casa nunca foi dele. Era minha.
“Cubra esses hematomas antes que minha mãe chegue”, disse Alejandro, deixando uma nécessaire de maquiagem perto da pia. “E sorria. Não quero nenhuma confusão na minha própria casa.”
A nécessaire caiu ao lado do lábio rachado de Mariana como um gesto de deboche embrulhado em papel rosa.
Ela sentou-se no chão frio do banheiro, com uma toalha manchada de sangue nas mãos. A luz da manhã entrava pela janela, impiedosa: seu olho direito inchado, sua maçã do rosto roxa, as marcas de dedos no braço e aquela queimação profunda nas costelas que a fazia lembrar de cada segundo da noite anterior.
O único crime dela fora dizer:
“Sua mãe não vai morar aqui.”
Nos golpes visíveis e nas chaves em sua mão.
PARTE 1