Eles não mencionam o ritual. A verdadeira guerra, aquela que destruiu nossas almas muito antes de destruir nossos corpos, não foi travada com canhões ou bombardeios aéreos. Ela aconteceu em um silêncio aterrador, em uma sala estéril, sob o olhar clínico de um homem que jamais elevou a voz. Ensinam-nos que o mal é caótico, barulhento, violento.
Isso é mentira. Aprendi aos 23 anos que o mal absoluto é meticuloso, puro. É matemático, e para nós, esse mal tinha uma dimensão precisa, uma distância intransponível que separava nossa humanidade de nossa estátua de 16 centímetros de altura. É esse número que ainda me desperta à noite, sessenta anos depois, meu corpo encharcado de suor frio, procurando freneticamente a barra da minha camisola para ter certeza de que era comprida o suficiente.
Meu nome é Noémie Clerveau, e antes de ser apenas um número em uma lista de inventário, eu era estudante. Eu morava em Saint-Germain-des-Prés, num mundo com cheiro de papel velho, café torrado e a ilusão de liberdade. Passava os dias debatendo poesia simbolista, convencida, com a arrogância da juventude, de que a cultura era um escudo impenetrável contra a barbárie.
Eu era ingênua. Antes, pensava que a guerra era assunto de homem, algo distante, que acontecia na Frente Oriental ou nos gabinetes dos ministérios. Não fazia ideia de que a guerra pudesse bater à minha porta numa tarde chuvosa de terça-feira, na forma de dois oficiais educados que me pediram para acompanhá-los numa simples verificação. Nem tive tempo de terminar minha xícara de chá.
Deixei o livro aberto na mesa de cabeceira, convencida de que voltaria naquela mesma noite para terminar o capítulo. Nunca mais vi aquele apartamento. Nunca mais vi a garota que eu era naquela manhã. Ela morreu no caminhão que nos levou para o leste, sufocada pelo cheiro de diesel e pelo medo coletivo de outras 30 mulheres. Estranho como a memória funciona.
Não me lembro do rosto do soldado que me empurrou para dentro do trem, mas me lembro da sensação do piso de madeira contra minha bochecha. Lembro-me do som das rodas sobre os trilhos, do ritmo hipnótico que sublinhava nossa descida ao inferno. Tac tac tac tac tac tac tac. Cada quilômetro nos afastava mais da civilização.
E nos aproximava de um mundo onde os princípios morais deixaram de existir. Viajamos por três dias sem água, sem luz, amontoados como gado. No início, havia gritos, orações e clamores de “não” na escuridão. Depois, o silêncio se instalou, um silêncio pesado e denso, o silêncio da compreensão. Sabíamos, sem precisar que nos dissessem, que não éramos mais cidadãos franceses.