“Senhor, com essa criança dormindo e essas flores murchas, talvez o senhor devesse procurar um motel mais barato um pouco mais longe.”
Ethan Vance estava imóvel diante do balcão de mármore da recepção do Grand Regent Hotel, no coração de Chicago. Sua filha de seis anos dormia profundamente, com a cabeça apoiada em seu ombro, e ele segurava um buquê de rosas vermelhas com força na mão esquerda.
Ele não respondeu imediatamente. Não porque não tivesse sentido a pontada da humilhação, mas porque Lily respirava suavemente em seu pescoço, exausta após um atraso de três horas no voo vindo de Denver. Ethan aprendera há muito tempo que, quando uma criança finalmente adormece depois de chorar silenciosamentede cansaço, os pais engolem o orgulho para não acordá-la.
Ele vestia uma jaqueta de couro marrom, bastante desbotada nos cotovelos, ostentava uma barba por fazer de três dias e carregava uma mochila surrada cheia de suprimentos, um tablet inútil, roupas extras e o coelho de pelúcia ao qual Lily se apegava desde a morte da mãe.
Ele comprara as rosas no aeroporto.
Amanhã completariam exatamente três anos desde a morte de Sarah, sua esposa. Todos os anos, no aniversário de sua morte, Ethan colocava flores frescas na sala de estar, e Lily escolhia o vaso. Era uma pequena, mas constante tradição, uma daquelas rotinas que perduram porque o luto precisa de um apoio simples e tangível.
“Tenho uma reserva”, disse Ethan em voz baixa. “Com Ethan Vance.”
A recepcionista, uma loira de cabelos impecáveis e um crachá dourado com o nome “Patricia”, olhou-o de cima a baixo antes de digitar, relutantemente, em seu computador. Ao lado dela, Karla, outra recepcionista com um elegante blazer bege, cruzou os braços com um sorriso frio.
Patricia digitou por alguns segundos. “Nada aparece.”
“A reserva deveria ter sido feita diretamente com a recepção”, explicou Ethan calmamente. “Poderia verificar o lounge executivo?”
Patricia soltou um suspiro profundo. “Senhor, não temos lugares disponíveis esta noite. Há um grande evento corporativo no salão principal, e estamos com lotação máxima.” Ethan gentilmente ajeitou o peso de Lily em seu ombro. A menina murmurou algo enquanto dormia, enterrando o rosto ainda mais em seu pescoço.
“Eu sei que você está ocupada”, disse Ethan. “Mas estamos viajando há muito tempo hoje. Minha filha precisa de uma cama. Se você pudesse dar uma olhada nela, eu ficaria muito grato.”
Karla deu uma risadinha curta, quase imperceptível. “As pessoas sempre chegam pensando que, se insistirem bastante, uma suíte de luxo aparecerá magicamente para elas.”
Patricia não corrigiu a colega. “Você poderia tentar um albergue barato mais perto da rodovia”, acrescentou, com naturalidade. “Talvez você tenha mais sorte lá.”
Ethan olhou para ela com uma calma que não deveria ser confundida com fraqueza. Era autocontrole absoluto. O que as duas mulheres não sabiam era que ele não era um hóspede qualquer.
O Hotel Grand Regent pertencia a ele.
Era um dos sete hotéis emblemáticos do grupo hoteleiro que Ethan construíra do zero em onze anos, antes de Sarah adoecer, antes de Lily aprender a perguntar por que a mãe não podia descer do céu.
Ethan nunca anunciava suas visitas aos hotéis. Vestia-se com simplicidade, chegava sozinho e observava com indiferença. Sempre dizia que os relatórios da empresa refletiam apenas números, mas a forma como os funcionários tratavam um completo estranho revelava sua verdadeira natureza.
“Posso falar com o gerente geral?”, perguntou ele.
O rosto de Patricia endureceu. “O gerente geral está ocupado. Não vou incomodá-lo só porque você não consegue encontrar sua reserva.”