PARTE 2
A dor nem sempre grita.
Às vezes, ele respira devagar, como um animal ferido. Às vezes, prende a respiração entre os dentes para que ninguém lá em cima ouça que você ainda está vivo.
Fiquei deitada no chão da garagem por um tempo que não sei precisar. Vinte minutos. Uma hora. Boleros antigos começaram a tocar na casa, o tipo de música que Dona Teresa colocava quando queria se sentir sofisticada. Diego odiava aquela música, mas odiava ainda mais encarar a mãe.
Ele sempre fora assim.
Um homem feito de silêncios, desculpas e medo.
Eu era contadora forense. Meu trabalho era encontrar mentiras escondidas em meio a faturas, folhas de pagamento falsas e empresas de fachada. Eu já havia ajudado a desmantelar esquemas de corrupção em prefeituras, fornecedores fictícios e contas que ninguém queria admitir.
E, no entanto, eu não via a maior mentira vivendo na minha própria cama.