PARTE 2
“Desça daí”, disse Mauricio entre dentes cerrados, subindo ao palco com um sorriso falso. “Você está pagando mico.”
Valéria não soltou o microfone.
Os convidados começaram a virar a cabeça. Alguns pegaram seus celulares. Outros olharam para Rebeca, esperando uma explicação elegante, daquelas que famílias ricas usam para transformar a crueldade em um “mal-entendido”.
Rebeca se levantou lentamente.
“Querida, você está nervosa. Todas as noivas ficam ansiosas antes do casamento.”
“Não estou nervosa”, respondeu Valeria. “Estou bem acordada.”
Um murmúrio percorreu o salão.
Mauricio se aproximou, ainda sorrindo para as câmeras.
“Valéria, por favor. Não estrague tudo por causa da disposição das cadeiras.”
Ela olhou para ele como se o estivesse vendo pela primeira vez.
“Por causa de duas cadeiras?”
“Exatamente.”
“Não, Mauricio.” Não se trata de duas cadeiras. Trata-se de dois anos de humilhação.
Seu maxilar se contraiu.
“Cuidado com o que diz.”
Valéria inclinou a cabeça.
“Por quê? Vai dizer que minha família também não combina com o seu sobrenome?”
O sorriso de Maurício desapareceu.
Rebeca deu um passo em direção ao corredor.
“Este casamento custou caro demais para uma garotinha insegura vir fazer um showzinho.”
Valéria deu uma risadinha.
“Ela tem razão. Custou caro.”
Ela olhou para os arranjos florais, os lustres de cristal, a mesa de doces, a pista de dança iluminada, o menu de quatro pratos.
“Mas você não pagou por isso.”
O silêncio foi quebrado.
Mauricio piscou.
“O que você disse?”
Valéria enfiou a mão em um pequeno bolso escondido dentro do vestido. Tirou o celular.
“Durante dois anos, deixei que pensassem que eu era apenas a filha de um dono de loja de ferragens em Iztapalapa.”
Don Ramón, atrás da coluna, finalmente ergueu os olhos.
Valéria continuou:
“E sim. Meu pai começou com uma pequena loja de ferragens. Mas essa loja foi a primeira do Grupo Sandoval, uma rede de distribuição de materiais de construção com contratos em 12 estados.”
Os murmúrios aumentaram.
Rebeca congelou.
“Além disso”, continuou Valeria, “há oito meses fundei uma empresa de investimentos privada. E há três semanas, essa empresa comprou uma parte significativa da dívida do Grupo Landa depois que seus hotéis começaram a dar prejuízo.”
Mauricio prendeu a respiração por um segundo.
“Isso é mentira.”
“Não. O que era mentira era o seu amor.”
Valéria pegou o celular.
As telas da sala de estar, configuradas para exibir fotos românticas do casal, acenderam de repente.
Primeiro, uma gravação de áudio foi reproduzida.
A voz de Rebeca ecoou pela sala:
“Coloquem os pais dela onde não possam ser vistos. Não quero que o pessoal da loja de ferragens estrague as fotos da família.”
Houve um suspiro coletivo.
Dona Lupita cobriu a boca com a mão.
Então, a voz de Mauricio foi ouvida, clara, calma, cruel:
“Valeria não vai reclamar. Ela está muito animada para se casar comigo.”
O rosto de Mauricio empalideceu.
“Onde você conseguiu isso?”
Valeria não respondeu.
Um e-mail apareceu nas telas.
Depois, outro.
Em seguida, uma conversa completa entre Mauricio, Rebeca e o advogado da família Landa.
Uma frase foi projetada, enorme, diante de todos:
“Depois do casamento, vamos convencer Valeria a assinar a cessão. Com a sua participação, economizamos os hotéis.”
Um banqueiro na primeira fila se levantou.
Uma mulher exclamou:
“Meu Deus…”
Mauricio pegou o celular.
“Desliga isso.”
Valéria deu um passo para trás.
“Ainda há tempo.”
Ele baixou a voz, mas o microfone captou cada palavra.
“Se você continuar com isso, vou arruinar sua família.”
Valéria sorriu amargamente.
“Era o que você pensava desde o começo, não era?”
Um vídeo apareceu na tela.
Mauricio estava sentado em um terraço privativo com Rebeca e um homem de terno cinza. Os três bebiam vinho. Rebeca ria.
“Assim que ela assinar, tudo ficará fácil”, disse ela. “Moças de origem humilde sempre querem provar que merecem estar aqui.”
Mauricio sorriu no vídeo.
“Meu amor, minha lua de mel e duas lágrimas são tudo o que preciso. Ela vai assinar.”
A sala irrompeu em murmúrios, toques de celulares e expressões de horror.
Mas, quando Valéria estava prestes a falar novamente, Maurício se inclinou perto de seu ouvido e sussurrou:
“Você não sabe com quem está se metendo.”
Então, as portas da sala se abriram.
Entraram três homens de terno, uma mulher carregando uma pasta preta e o advogado de Valéria.
E quando Rebeca os viu, seu rosto empalideceu completamente.