E então Mateo partiu.
Vinte e cinco anos se passaram.
Vinte e cinco anos se passaram.
Guadalajara mudou suas avenidas, seus prédios e seu ritmo. Onde antes havia terrenos baldios, surgiram torres de vidro. Onde antes havia mansões antigas, brotaram restaurantes sofisticados. Os sobrenomes ainda tinham peso, mas menos. O dinheiro ainda mandava, embora agora o fizesse por meio das redes sociais e campanhas de imagem.
Isabella Montes também mudou.
Ela não era mais a garotinha de tranças perfeitas que escondia meio sanduíche na lancheira. Tinha trinta e quatro anos, era formada em administração de empresas e o nome Montes ainda lhe abria portas que às vezes desejava poder fechar. Após a morte da mãe, tentou trilhar um caminho diferente do do pai. Queria transformar parte do grupo hoteleiro em uma fundação de verdade, não em uma fachada elegante para isenções fiscais.
Mas com o pai, nada era fácil.
Dom Ricardo Montes continuava sendo um homem duro, obcecado por prestígio e pela ideia de que compaixão deveria ficar bem em fotografias, e não complicar o balanço financeiro. Todas as propostas de Isabella terminavam da mesma forma.
“Empresas não são abrigos.”
“Não estou falando de dar coisas de graça, estou falando de investir em pessoas.”
“Pessoas gratas não existem.”
Depois de anos de discussões, Isabella se cansou. Ela permaneceu na empresa, sim, mas em um pequeno canto. Administrava programas internos, bolsas de estudo limitadas, apoio aos funcionários. O suficiente para dormir um pouco melhor. Não o suficiente para se sentir livre.
Ela nunca se casou.
Houve namorados, noivados quase assinados, jantares impecáveis com bons homens. Mas ela sempre acabava com a sensação de estar conversando com pessoas inteiras, enquanto uma parte dela permanecia presa em uma ruazinha de Guadalajara, observando uma criança com uma fita azul no pulso prometer algo impossível.
Com o passar dos anos, ela parou de contar essa história.
As pessoas sorriam com ternura ou ironia quando ela mencionava o assunto. “Que linda lembrança.” “Crianças prometem tudo.” “Ele provavelmente nem se lembra de você.”
Ela também sorria.
Mas permanecia em silêncio quando, em algumas noites, abria uma caixa antiga onde guardava metade de uma pulseira de prata. Mateo havia ficado com a outra metade.
O vigésimo quinto aniversário do Grupo Montes chegou em meio a dificuldades. A rede estava sobrecarregada com dívidas ocultas, hotéis antigos e um projeto fracassado em Puerto Vallarta que havia drenado milhões. Dom Ricardo organizou um luxuoso baile de gala para demonstrar força.
Ele convidou a imprensa, políticos, empresários e potenciais investidores.
Ele precisava formar uma aliança para salvar o grupo.
Isabella sabia disso porque ouvira os advogados conversando em voz baixa: se o capital novo não aparecesse naquela noite, eles teriam que vender os ativos históricos em menos de seis meses.
O baile de gala foi realizado no Hotel Imperial, a joia histórica da família. Lustres restaurados, flores brancas, violinistas junto à escadaria principal. Tudo perfeito por fora.
Por dentro, medo.
Isabella vestia um vestido azul-escuro e sua paciência estava se esgotando. Acenou com um sorriso enquanto observava o pai fingir confiança, com um copo na mão.
“Alguém importante chegará hoje”, disse ele sem olhar para ela. “Seja profissional.”
“Sempre sou.”
“Não me contradiga na frente dele.”
“Nem sei quem ele é.”
Don Ricardo ajeitou o paletó.
“O fundador do Grupo Cruz Altamira.”
Isabella franziu a testa. O nome lhe soava familiar: empreendimentos imobiliários, tecnologia hoteleira, energia limpa, investimentos internacionais. Uma empresa que, em menos de dez anos, havia explodido como poucas no México.
“O jovem milionário de Monterrey?”, perguntou um sócio, aproximando-se. “Dizem que ele vale mais de novecentos e cinquenta milhões.”
“O jovem milionário de Monterrey?”, perguntou um sócio, aproximando-se. “Dizem que ele tem uma fortuna de mais de novecentos e cinquenta milhões.” — E crescendo — respondeu o pai com um sorriso ensaiado.
Isabella mal ouviu a voz.
Cruz.
Sentiu algo estranho, quase ridículo, subir-lhe ao peito.
Não. Impossível.
Às nove e dez, a entrada principal abriu-se.
Primeiro vieram os assistentes, depois a segurança discreta, seguidos por um homem alto de terno cinza-escuro, com as costas eretas e uma calma incomum, daquelas que não precisam provar nada. Parecia ter uns trinta e cinco anos. Bronzeado, com o queixo firme e um olhar sereno.
Toda a sala se voltou para ele.
Dom Ricardo deu um passo à frente com as duas mãos estendidas.
“Sr. Cruz, é uma honra…”
O homem apertou-lhe a mão por um instante.
Então olhou em volta.
Examinou uma centena de rostos como alguém que sabe exatamente quem veio ver há anos.
Seus olhos pararam em Isabelella.
Ela prendeu a respiração.
Porque ele sorriu como aquela criança faminta que recebe metade de um bolo pela primeira vez.
Mateo caminhou diretamente em sua direção.
A sala inteira observava enquanto o investidor mais cobiçado da noite ignorava políticos, associados e fotógrafos para parar diante da filha do dono.
“Demorei um pouco mais do que o prometido”, disse ele suavemente.
Isabella sentiu as mãos tremerem.
“Mateo…”