PARTE 2
Às 5h30 da manhã, o despertador tocou como uma sentença de morte. Carmen mal havia dormido três horas. Seus olhos estavam inchados, suas costas rígidas e seu peito repleto de uma ansiedade persistente. Ela desceu até a cozinha procurando a única coisa que a mantinha acordada antes do turno: seu café. Mas sua cafeteira havia sumido. Em seu lugar, havia uma enorme máquina de expresso cromada, com botões e luzes que pareciam pertencer a uma nave espacial. Em cima dela, um cartão escrito em uma caligrafia elegante dizia:
“Não usar sem permissão. Configurações delicadas.” Carmen sentiu algo dentro de si se quebrar um pouco mais. “Você está procurando aquela cafeteira antiga?” Valeria apareceu em um roupão de seda, imaculada, segurando uma xícara branca. “Eu a coloquei no porão. Deixava a cozinha com uma aparência tão comum.” “Era a minha cafeteira.” “E esta é melhor. Mas, por favor, não toque nela. Custou mais de 40.000 pesos.” Carmen soltou uma risada seca e sem alegria. “40 mil pesos para fazer café, enquanto meu filho está desempregado.” Valeria estreitou os olhos, mas se recompôs rapidamente. “É exatamente por isso que estou ajudando o Diego a projetar uma imagem diferente. Ele precisa subir de nível, não ficar preso a hábitos de sobrevivência.” Nesse momento, Diego apareceu, desgrenhado, vestindo uma camiseta amassada. Carmen o encarou, esperando que ele dissesse algo, que defendesse ao menos um canto da casa onde cresceu. “Filho, sua esposa mudou minha cozinha sem me consultar. Guardou minhas coisas. Está me dizendo que não posso usar meus próprios eletrodomésticos.” Diego desviou o olhar. “Mãe, a Valeria só está organizando. Honestamente, a casa realmente precisava de uma mudança.” Carmen sentiu o golpe vir de uma profundidade maior do que na noite anterior. Vinha de todos os anos em que acreditou que se sacrificar por Diego um dia seria reconhecido. “Você sabia da geladeira?” Diego engoliu em seco. “Sim, mas achei que você gostaria. É mais moderna.” Valéria aproximou-se e colocou a mão no ombro do marido. “Além disso, Carmen, precisamos conversar sobre algo sério. Você não deveria mais trabalhar assim.” Vinte e seis horas seguidas não é normal. Alguém da sua idade deveria estar pensando em se aposentar. Carmen congelou. “Eu não posso me aposentar. Ainda tenho contas, remédios, luz, IPTU…” “Mas se você vendesse esta casa”, disse Valéria com uma gentileza calculada, “tudo seria diferente. Existem casas de repouso muito boas. Com refeições inclusas, limpeza, enfermeiras… você poderia descansar, e Diego e eu poderíamos começar nossas vidas sem tanto estresse.” O silêncio era ensurdecedor. Carmen olhou para o filho. “Você também acha?” Diego esfregou o rosto. “Mãe, ninguém está te expulsando. Estamos apenas analisando opções. Esta casa é grande demais para você sozinha, e nós poderíamos administrá-la melhor.” Administrar. A palavra soava como roubo disfarçado de ajuda. Carmen não gritou. Ela não chorou. Ela subiu até seu quarto, pegou as escrituras do arquivo e as segurou nas mãos. Lá estava seu nome: Carmen Ramírez López. Proprietária única. Então, lembrou-se de Lupita, uma vizinha advogada que certa vez lhe dissera: “Dona Carmen, nunca assine nada sem ler. E se algum dia se sentir pressionada em relação à sua casa, me ligue.” Aquele dia havia chegado. Durante seu repouso no hospital, Carmen ligou para Lupita de um corredor, em voz baixa. “Preciso de ajuda. Acho que meu filho e minha nora querem tomar minha casa.” Lupita não fez perguntas. Simplesmente disse: “Não assine nada. Não dê nenhum documento a eles. E eu passo aqui amanhã.” Mas naquela noite, quando voltou pela porta dos fundos, como combinado, Carmen encontrou Diego e Valeria sentados na sala de estar com uma pasta sobre a mesa. Valeria sorriu. “Que bom que você está aqui. Precisamos apenas que você assine alguns documentos para ‘facilitar assuntos familiares’”. Carmen olhou para a pasta. E, pela primeira vez, ela viu claramente até onde eles pretendiam ir.