ANÚNCIO
Emilio passou a mão pelo rosto, dominado por uma mistura de culpa e admiração. Ele havia instalado os dispositivos esperando descobrir uma traição, alguma negligência que justificasse sua desconfiança crônica do mundo exterior, mas, em vez disso, encontrou um milagre silencioso e obstinado. Por que escondê-lo? Por que Luz não lhe contara nada? A resposta o atingiu como um soco no estômago: os cinco cuidadores anteriores haviam partido porque estavam simplesmente cumprindo um contrato, mantendo a criança limpa e imóvel, exatamente como o sistema médico sugeria para evitar frustrações. Luz estava correndo um risco, quebrando as regras do cuidado passivo para oferecer a Renata uma chance real de progredir, sabendo que Emilio, consumido pelo medo de mais uma decepção, provavelmente teria proibido qualquer tentativa que causasse o menor atrito ou marca na pele de sua filha.
O resto da tarde transcorreu em uma letárgica expectativa. Emilio não conseguia se concentrar em nenhuma outra tarefa. Ele olhava para o relógio na parede a cada cinco minutos, desejando que o tempo voasse para que pudesse chegar em casa. Quando finalmente chegou a hora de partir, ele não esperou o trânsito diminuir; pegou rotas alternativas, dirigindo com uma urgência que não sentia desde os dias em que Renata estivera hospitalizada.
Quando o carro parou em frente à casa, a cena lá fora era idêntica à da noite anterior. A chuva fina ainda caía, as luzes internas projetavam o mesmo tom amarelado nas janelas e a fumaça da cozinha sugeria a mesma rotina tranquila. Mas para Emilio, tudo havia mudado. Ele não sentia mais a necessidade de se dar dez segundos ao volante para se recompor. Desligou o motor imediatamente, pegou o casaco e caminhou decidido em direção à porta da frente.
Ao abrir a porta, o cheiro de comida o recebeu. Luz estava na cozinha, terminando de guardar os utensílios. Renata estava na sala de estar, em seu lugar de sempre. Emilio largou a pasta na entrada e foi direto para a filha. Ajoelhou-se diante dela, adotando a mesma postura que vira Luz adotar na tela do celular. Ele pegou a mão direita de Renata, a mesma que segurara a bola de borracha algumas horas antes. A pele da menina estava quente, vibrante.
Para mais informações, continue na próxima página.
PUBLICIDADE