PARTE 2
Lupita não guardou o dinheiro na bolsa.
Ela não olhou para a porta.
Ela não escondeu nada.
Pegou a primeira nota, alisou-a cuidadosamente sobre a mesa e a colocou em pé, como se estivesse organizando uma tarefa de casa.
Depois pegou outra.
E outra.
Separou as notas de 500 dólares em uma pilha, as de 200 em outra, separou os recibos importantes dos papéis amassados e alinhou as canetas para que não rolassem para o chão.
No monitor, Ernesto franziu a testa.
“O que diabos ela está fazendo?”
A garota abriu seu caderno de matemática.
Com um lápis mordido, começou a contar.
Seus lábios se moviam silenciosamente.
Lupita fez colunas, calculou as contas, conferiu duas vezes e então se abaixou.
Ernesto pensou o pior.
“Lá está ela. Procurando mais.”
Mas a garotinha tirou uma nota de 500 dólares empoeirada debaixo do sofá.
Ela a limpou, sorriu satisfeita e a colocou na pilha certa.
Então, escreveu em seu caderno:
80 notas de 500 dólares = 40.000 dólares
50 notas de 200 dólares = 10.000 dólares
Total: 50.000 dólares
Finalmente, ela organizou o dinheiro cuidadosamente e colocou o caderno por cima para que nenhuma página voasse.
Erneste ficou estupefato.
Por 15 anos, ele usara o mesmo truque.
Motoristas, jardineiros, cozinheiros, assistentes.
Todos haviam caído na armadilha.
E agora, uma menina de 7 anos, com sapatos gastos, não só não estava roubando nada, como estava encontrando o dinheiro perdido e organizando-o melhor do que seu contador.
O milionário desceu para a sala de estar.
Lupita se assustou ao vê-lo. — Quem lhe deu permissão para tocar na minha mesa? — perguntou ele.
A menina baixou a cabeça.
— Desculpe, senhor. Foi tudo uma confusão. Minha mãe diz que o dinheiro deve ser respeitado, mesmo que não seja seu.
Ernesto pegou o caderno.
Ele olhou para as contas.
Viu a caligrafia infantil.
Sentiu uma sensação estranha no peito.
— Você gosta de matemática?
— Sim, senhor. Os números não mentem. As pessoas às vezes mentem, mas os números não.
Aquela frase o atingiu em cheio.
Nesse instante, Marisol entrou correndo.
— Lupita! Eu disse para você não tocar em nada!
Ela abraçou a filha pálida.
— Me desculpe, Dom Ernesto. Por favor, não nos expulse. Ela não fez por mal.
Ernesto olhou para a mãe, depois para a menina, depois para o dinheiro.
— Não vou expulsá-las.
Marisol ficou sem palavras.
“Sua filha acabou de me dar uma lição”, disse ele. “E isso não é caridade.”
Ele tirou uma nota de 500 pesos e deu para Lupita.
“É o pagamento por um trabalho bem feito.”
Marisol queria recusar, mas Ernesto levantou a mão.
“Essa menina tem um dom. E desperdiçá-lo seria uma verdadeira pena.”
A partir daquele dia, algo mudou na mansão.
Ernesto continuava sério, mandão e, para ser sincera, meio ogro.
Mas começou a deixar livros de álgebra na sala de estar.
Problemas escritos em quadros-negros.
Cálculos complicados sobre investimentos.
Lupita os resolvia enquanto Marisol limpava.
Aos poucos, a casa deixou de parecer um túmulo.
Até que a verdadeira sombra apareceu.
Rodrigo Salvatierra, o único sobrinho de Ernesto, chegou numa quinta-feira em seu carro esportivo vermelho.
Usava óculos caros, perfume forte e um sorriso falso.
Nunca tinha tido um emprego de verdade.
Viveu às custas do tio e se achava o herdeiro de tudo.
Quando entrou na biblioteca e viu Ernesto explicando juros compostos para Lupita, seu rosto se contorceu.
“Então, se eu economizar mil dólares e o valor crescer todo mês, não é uma boa ideia gastá-lo com doces?”, perguntou a garota. disse.
Ernesto riu.
“Exatamente, baixinho.”
Rodrigo rangeu os dentes.
“Baixinho.”
Seu tio mal olhou para ele.
Ele sorriu para a filha da empregada como um avô.
Mais tarde, Rodrigo vasculhou o escritório secretamente.
Encontrou um recibo de pagamento de uma escola particular.
A mensalidade de Lupita Reyes.
Seu sangue ferveu.
“Ele está gastando minha herança com aquela pirralha”, sussurrou.
Naquele mesmo dia, decidiu expulsá-los de casa.
Mas não com fofocas.
Com uma armadilha.
A oportunidade surgiu em um jantar em família.
Estava chovendo forte na Cidade do México.
Marisol estava arrumando a mesa.
Lupita estava fazendo a lição de casa na cozinha.
Ernesto tirou seu relógio de ouro, uma lembrança de seu pai, e o colocou na prateleira da entrada antes de lavar as mãos.
Rodrigo o viu.
Ele sorriu.
Assim que Ernesto entrou no banheiro, Rodrigo pegou o relógio e o colocou no bolso do paletó.
Em seguida, foi até a cozinha.
“Oi, Lupita. Essa mochila é sua?”
“Sim, senhor.”
“É bonita.”
Enquanto a garota apagava alguns cálculos, Rodrigo jogou o relógio no bolso lateral da mochila.
Rápido.
Sujo.
Covarde.
Durante o jantar, ele esperou o momento perfeito.
“Tio, que horas são? O senhor não está usando seu relógio.”
Ernesto tocou o pulso.
“Deixei na entrada.”
Ele foi buscá-lo.
Segundos depois, seu grito ecoou pela casa.
“Marisol!”
Ela saiu correndo.
“O que aconteceu, senhor?”
“Meu relógio sumiu.”
Rodrigo apareceu, fingindo preocupação.
“Que estranho, tio.” Ninguém entrava nem saía. Bem… quase ninguém.”
Marisol entendeu.
Seu rosto empalideceu.
“Não, senhor. Nós jamais faríamos isso…”
Rodrigo a interrompeu.
“Não estou falando de você, Marisol. Mas as crianças veem coisas brilhantes. E quando vêm de onde vêm…”
“Não fale assim da minha filha!” gritou Marisol, pela primeira vez.
Rodrigo foi direto para a mochila.
Lupita se levantou, tremendo.