Ainda consigo ouvir o som que fez quando Rebecca abriu a caixa na frente de todos, como se estivesse fazendo algum truque patético para me humilhar pela última vez.
Dentro havia uma passagem só de ida para a Costa Rica.
E só.
Nenhuma carta.
Nenhuma chave.
Nenhum bilhete.
Nem uma palavra explicando por que o homem que amei até o último suspiro estava deixando milhões para eles…
e me mandando sozinha para outro país.
Foi então que os sorrisos apareceram.
O sorriso presunçoso de Rebecca. O meio riso de Diego. E o de Elvira, minha nora, que nem se deu ao trabalho de fingir constrangimento.
“A Costa Rica é um lugar tranquilo”, disse Diego, olhando novamente para os documentos da herança. “Perfeito para um homem da sua idade.”
Ele disse isso naquele tom suave que pessoas cruéis costumam usar quando, na verdade, só querem te empurrar para a porta.
Eu tinha setenta e dois anos.
E pela primeira vez em muito tempo, me senti mais do que apenas uma viúva.
Senti-me indesejada.
A pior parte não era o dinheiro.
A pior parte era ver meus filhos se alegrarem com o que haviam conquistado, em vez de lamentarem a perda de uma pessoa.
Porque Roberto não morreu de repente.
Ele se foi lentamente.
E enquanto eu segurava seu corpo, sua casa, sua vida, eles vinham e iam como visitas. Telefonemas rápidos. Sapatos caros. Abraços que nunca duravam o suficiente para cheirar a tristeza. Rebecca vivia confortavelmente.
Diego morava longe.
E Elvira sempre olhava para nossa casa como se a pobreza pudesse se agarrar às suas roupas de grife se ela ficasse lá por muito tempo.
Eu, por outro lado, continuei costurando.
Costurava para comprar remédios.
Costurava para comprar comida.
Costurava para pagar as contas.
Costurava à noite, enquanto Roberto adormecia e acordava segurando minha mão, como se pedisse desculpas por algo que ainda não entendia. Na noite anterior à sua morte, ele disse algo que me pareceu estranho.
Quase sem sentido.
“Não se deixe enganar pelas aparências, Teresa. Às vezes, as coisas mais valiosas vêm nos menores pacotes.”
No funeral, parada ali com a passagem aérea na mão, cercada por sorrisos, eu me convenci de que provavelmente era apenas o tênue consolo de um homem moribundo.
Mas naquela noite, sozinha em casa, olhei para a passagem novamente.
Partida em três dias. Costa Rica.
Roberto e eu quase nunca conversávamos sobre a Costa Rica. Não era o destino da nossa lua de mel. Não era um lugar onde tínhamos família. Não era um sonho antigo que nunca conseguimos realizar.
Não fazia sentido.
E, no entanto, algo dentro de mim não queria abandonar essa ideia. Talvez fosse tristeza.
Talvez fosse orgulho.