O vídeo romântico que Adrián vinha mostrando há semanas não apareceu nas telas.
Uma pasta com o logotipo da auditoria externa surgiu.
Em seguida, uma linha do tempo.
Contratos duplicados. Transferências noturnas. Pagamentos a fornecedores inexistentes. Faturas de reformas nunca realizadas em hotéis em Oaxaca, Puebla e Mérida.
O primeiro slide dizia:
DESFALQUE ESTIMADO: 132 MILHÕES DE PESOS.
O pátio inteiro se encheu de murmúrios.
Adrián caminhou em direção ao técnico.
“Desligue isso.”
Dois seguranças do hotel se colocaram à sua frente.
“É um casamento particular!”, gritou ele. “Vocês não têm esse direito!”
Levantei o microfone.
“Privado foi mentira. O prejuízo foi causado a uma empresa que emprega mais de 900 famílias.”
Beatriz caminhou em minha direção, com o rosto vermelho.
“Desça daí antes que mude de ideia.”
Meu pai estava ao meu lado.
“Beatriz, você e seu filho estão proibidos de fazer negócios com a Hoteles Rivera desde as 10h. A diretoria votou por unanimidade.”
A ata assinada apareceu na tela.
Adrián empalideceu.
“Isso não é justo. Mariana não podia convocar uma reunião da diretoria sem me avisar.”
“Poderia sim”, respondeu meu pai. “Porque você não era membro da diretoria. Você era o noivo da minha filha e um consultor externo. Nada mais.”
Várias pessoas se viraram para olhá-lo. O “grande estrategista” que se apresentara como o futuro dono do grupo acabara de ser desmascarado como um convidado ambicioso demais.
Mas Beatriz não ia desistir tão facilmente.
“Vocês são todos novos-ricos”, ela cuspiu as palavras. “Dá para ver na sua pele. No seu jeito de falar. Nessa obsessão por defender uniformes como se fossem coroas.”
Um silêncio pesado pairou sobre o pátio.
Dona Tere, uma camareira que trabalhava conosco desde que eu era criança, levantou-se da última fila.
“Com todo o respeito, senhora”, disse ela, com a voz trêmula, “se a senhora acha que limpar quartos não é nada, é porque nunca soube o que custa manter uma casa.”
Alguns funcionários começaram a aplaudir. Depois, hóspedes que não trabalhavam para nós se juntaram a eles. Até um dos tios de Adrián baixou o olhar, envergonhado.
Adrián me encarou.
“Você está manipulando eles.”
“Não. Estou mostrando a eles o que você queria esconder.”
Apertei o amuleto no meu pulso.
O áudio saiu pelos alto-falantes.
Primeiro, ouviu-se a voz de Beatriz, clara e venenosa:
“Deixem-na sair de uniforme. Se chorar, melhor ainda. Assim todos entenderão que ela não nasceu para mandar.”
Depois, a voz de Adrián:
“Contanto que eu assine o contrato de fideicomisso depois da cerimônia, aguento o chilique. Depois do casamento, tiramos o direito de voto dela e a empresa se resolve sozinha.”
Um murmúrio de indignação percorreu o pátio.
Adrián congelou.
“Você me gravou.”
“Eu ouvi”, respondi. “É diferente.”
“Isso não prova nada.”
Meu pai mudou o slide.
Minha assinatura digital apareceu em uma autorização de pagamento de 18 milhões de pesos. Abaixo, a análise do perito: assinatura clonada de um dispositivo registrado em nome de Adrián Castañeda.
Senti um soco no peito.
Mesmo já sabendo, ver aquilo na frente de todos doeu. Não por causa do dinheiro. Doeu porque aquele homem dormiu ao meu lado enquanto copiava minha identidade.
Beatriz tentou se recompor.
“Meu filho só estava protegendo o futuro dele.” Esta empresa precisa de uma família de verdade, não de uma garota brincando de executiva.
Daniela, minha amiga, veio com meu tablet.
“Mari, o e-mail chegou.”
Abri a mensagem. Era do contador interno que tinha desaparecido duas semanas antes, o mesmo que Adrián disse que tinha “pedido demissão por estresse”.
O nome dele era Hugo.
Pensei que ele tivesse saído por medo. Mas naquela tarde ele mandou tudo.
E-mails originais. Capturas de tela. Instruções da Beatriz. E uma gravação em que Adrián falava de algo pior: usar meu casamento como pressão emocional para me fazer assinar um documento naquela mesma noite.
“Se ela se recusar, vamos fazê-la parecer instável”, dizia a voz dele na gravação. “Que todos a vejam explodir. Ninguém vai confiar uma empresa a uma noiva histérica.”
Minha garganta se fechou.
Era esse o plano.
Eles não queriam apenas roubar.
Queriam destruir minha credibilidade.
Meu pai pegou minha mão debaixo do microfone.
“Respire, filha.”
Respirei.
Adrián se aproximou do altar e falou baixinho, quase implorando.
“Mariana, por favor. Ainda podemos consertar isso. Eu te amo. Isso saiu do controle por causa da minha mãe.”
Beatriz se virou para olhá-lo, ofendida.
“Por minha causa?”
Ele não olhou para ela.
“Eu só queria segurança para nós.”
Olhei para ele com tristeza.
“Você não queria uma esposa, Adrián. Você queria uma chave.”
Naquele momento, as portas do pátio se abriram.
Dois policiais entraram, acompanhados por um tabelião e uma senhora de cabelos grisalhos que caminhava com uma bengala.
Quando Beatriz a viu, empalideceu.
Era Carmen Castañeda, mãe de seu falecido marido e avó de Adrián. Uma mulher que todos pensavam estar doente, isolada, incapaz de saber de qualquer coisa.
Carmen parou em frente ao altar.
“Eu me atrasei para muitas coisas”, disse ela. “Mas não para esta.”
Adrián engoliu em seco.
“Vovó, você não tem ideia do que está acontecendo.”
Ela tirou uma pasta da bolsa.
“Eu sei mais do que você pensa.”
E eu trouxe as escrituras originais da casa, as contas onde esconderam o dinheiro e a denúncia que fiz contra a minha própria família esta manhã.
Beatriz deu um passo para trás.
“Mamãe Carmen, você não pode fazer isso conosco.”
A velha olhou para ela com desdém.
“Não me chame de mamãe. Uma mãe não ensina o filho a roubar o futuro de uma mulher.”
Os agentes se aproximaram de Adrián.
Mas antes que pudessem tocar em seu braço, ele gritou:
“Mariana também assinou! O contrato foi assinado ontem à noite!”
Todos se viraram para mim.
Beatriz esboçou um sorriso forçado.
“Vocês não podem negar. A herdeira assinou.”
Fechei os olhos por um segundo.
Então olhei para os convidados, os funcionários, meu pai e o uniforme que tentaram usar contra mim.
“Sim”, eu disse. “Eu assinei.”
E, pela primeira vez em toda a tarde, ninguém sabia quem estava dizendo a verdade.
Você acreditaria em Mariana depois de ouvir que ela assinou, ou pensaria que Adrián ainda tem um truque na manga?
PARTE 3 Continua na próxima página