Não para mim.
Para eles.
Porque existem humilhações que um adulto pode arquivar, racionalizar, deixar apodrecer.
Mas quando elas passam diante dos olhos dos seus filhos, deixam de ser feridas antigas.
Transformam-se em chamas.
Eu era designer de interiores freelancer.
Trabalhava da minha sala de estar, muitas vezes até às três da manhã, criando renderizações, plantas, orçamentos e ligando para fornecedores enquanto meus filhos dormiam.
Aprendi a responder e-mails com uma mão e a preparar uniformes com a outra.
Entreguei projetos com febre.
Fiz videochamadas do carro enquanto esperava do lado de fora da sala de terapia.
Chorei diante de uma tela em branco e depois a liguei de novo porque a conta precisava ser paga.
Para Paola, isso era “brincar com desenhos animados”.
Para minha mãe, eu ainda era a viúva que mal sobrevivia.
Aquela que tinha que ser grata por cada migalha.
Aquela que não conseguia exigir espaço porque, em sua mente, o luto me relegara a um status inferior.
Meu tio Ricardo tentou mudar de assunto.
Ele sempre fora um dos poucos que não gostavam de crueldade, embora raramente a impedisse.
“E seu trabalho, Renata?”, perguntou ele. “Como vai?”
Por um segundo, vi uma porta.
Pequena.
Boba.
Mas uma porta.
Eu acabara de assinar o maior contrato da minha vida.
A reformulação completa de quatro hotéis boutique em Oaxaca e Baja California.
Meses de negociações.
Apresentações.
Amostras.
Orçamentos.
Uma equipe que, pela primeira vez, não falava comigo como um favor, mas como uma parceira.
Se este projeto desse certo, eu poderia abrir meu próprio estúdio.
Contratar pessoas.
Parar de viver com uma calculadora na ponta dos dedos.
Uma parte de mim queria dizer isso com alegria.
Talvez, pensei, minha mãe ficasse orgulhosa.
É constrangedor admitir, mas às vezes uma filha adulta fica esperando por um tapinha nas costas que nunca veio.
“Me ofereceram um grande projeto”, eu disse. “Se der certo, posso abrir meu próprio estúdio.”
Minha mãe sorriu sem olhar para mim.
“Que ótimo, querida.”
Duas palavras.
Sem graça.
Sem peso.
Então Paola ergueu a taça.
“Espero que você finalmente consiga um emprego de verdade e pare de se fazer de boba com esses bicos.”
Alguns riram.
Nem todos.
Mas chega.
Paola continuou, porque ninguém a havia interrompido.
“Talvez assim você pague suas próprias férias e pare de esperar que a mamãe abra espaço para você.”
April pegou minha mão por baixo da mesa.
Seus dedos estavam frios.
“Mãe”, ela sussurrou, “será que vamos pagar mico?”
Essa pergunta não me ocorreu.