Não era limpo. Era pesado. Culpado. Lucía percebeu. O advogado também. “Essa é uma ótima pergunta, querida”, disse o Sr. Salgado gentilmente. “Porque há algo mais.” Patricia ergueu a cabeça bruscamente. “Não.” O advogado pegou um terceiro arquivo. “O tribunal autorizou uma auditoria preliminar das transações do Fundo Fiduciário Montes. Encontramos depósitos mensais em uma conta em nome dos mineiros.” Sebastián piscou. “Qual conta?” Lucía sentiu um aperto no peito. “Depósitos?” O advogado assentiu. “Por quase oito anos.” A sala ficou em silêncio. Lucía olhou para Patricia. “Enquanto eu trabalhava em turnos duplos, enquanto eu vendia meu carro, enquanto eu dizia aos meus filhos que não podíamos ir de férias porque tínhamos que pagar a mensalidade da escola… havia algum dinheiro para eles?” Patricia franziu os lábios. “Esse dinheiro era para proteger a família.” “A família?” Lucía repetiu. Sua voz mal falhou. Pela primeira vez naquela noite, a dor era evidente. Meus filhos comeram sopa instantânea mais de uma vez porque eu não tinha dinheiro para tudo. Mateo usou óculos quebrados por três meses. Regina teve febre e eu tive que escolher entre pagar o remédio ou o aluguel. E você, estava economizando milhões para “proteger a família”? Sebastián olhou para a mãe. “Mãe… você sabia?” Patricia não respondeu.
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Mariana soltou uma risada amarga. “Claro que eu sabia. Eu sempre sei de tudo.” O rosto de Sebastián mudou. O primeiro medo real surgiu. Não o medo de ficar mal na fita. Não o medo das fofocas. O medo de descobrir que ele também havia sido manipulado. “O que você fez?”, perguntou ele a Patricia. Ela endireitou as costas. “Fiz o que era necessário. Aquela mulher ia arruinar sua vida. Você tinha vinte e nove anos, uma carreira política pela frente, negócios, um nome de família. Você não ia se envolver com uma garota grávida que nem sequer podia provar nada.” Lucía sentiu como se tivesse levado um soco no rosto. “Tentei falar com você dezessete vezes, Sebastian. Enviei ultrassonografias. Enviei mensagens. Sua assistente me bloqueou. Seu advogado me ameaçou.” “Sua mãe me disse que, se eu insistisse, tirariam meus filhos de mim.” Sebastian balançou a cabeça lentamente. “Nunca recebi nada.” “Porque eu interrompi”, disse Patricia. Ela disse isso sem vergonha. Como se estivesse falando em mudar o cardápio do jantar. Os convidados permaneceram em silêncio. Mariana deu mais um passo para trás. “Você está doente.” Patricia olhou para ela com desprezo. “Cuide da sua vida. Se não fosse por mim, você também não estaria aqui.” Mariana franziu a testa. “O que você quer dizer?” Patricia se arrependeu das palavras no instante em que as pronunciou. Mas era tarde demais. O advogado observava Mariana. “Senhorita, a Sra. Montes fez você assinar um contrato antes do noivado?” Mariana hesitou em responder. “Sim. Um acordo de confidencialidade. Ela disse que era normal por causa do sobrenome.” “Havia alguma cláusula sobre a gravidez?” Mariana permaneceu imóvel. Sebastián olhou para ela. “O quê?” Ele baixou o olhar. “Sua mãe me pediu um exame médico antes de anunciar o noivado.” Lucía sentiu a atmosfera ficar tensa. “Um teste de gravidez?” Mariana assentiu, com os olhos cheios de lágrimas. “Eu estava grávida de seis semanas. Patricia me disse que, se eu anunciasse, Sebastián pensaria que eu estava tentando prendê-lo. Ela me fez assinar um documento renunciando à pensão alimentícia caso a gravidez não continuasse.” Sebastián levou as mãos à cabeça. “Mariana…” Ele chorou, mas não se aproximou dela. “Perdi o bebê duas semanas depois. E sua mãe me disse que era melhor assim, porque ter um filho antes do casamento era considerado vulgar.” Valentina irrompeu em lágrimas silenciosas. Lucía a abraçou. Não era mais apenas uma história de abandono. Era uma fábrica familiar de segredos, vergonha e controle. Sebastián se deixou cair em uma cadeira. Pela primeira vez, ele não se parecia mais com o homem arrogante que, oito anos antes, a acusara de mentir. Ele parecia um garoto rico que descobre que seu castelo está podre até o âmago. Mas Lucía não sentiu pena. Ainda não. Porque ele também havia escolhido não olhar. Ele também havia escolhido acreditar no que lhe convinha. Ele também havia dormido tranquilamente enquanto quatro filhos cresciam se perguntando onde estava um pai que nunca chegara. Mateo deu um passo à frente. “Então você sabia que minha mãe estava grávida?” Sebastián ergueu o olhar, devastado. “Eu sabia que ela disse que estava grávida. Mas me disseram que era mentira.” “E você não foi vê-la?” perguntou Emiliano. Sebastián não conseguiu responder. Regina, com os olhos vermelhos, disse suavemente: “Minha mãe nunca mente.” Aquela frase quebrou algo dentro dele. Sebastián chorou. Chorou na frente de seus primos, seus sócios, sua noiva e seus filhos. Mas não houve abraço. Nenhum perdão automático. A vida real não funciona como uma novela das 21h. O juiz entregou alguns documentos a Patricia e Sebastián. “Você está intimado(a) a comparecer a uma audiência urgente amanhã, às 9h.” Também foi determinado que registros financeiros, e-mails, câmeras e arquivos familiares sejam preservados.