Eu não exigi nada. Não discuti. Não pedi explicações. Não chorei. Eu só tinha a roupa do corpo e uma pequena bolsa.
Inclinei levemente a cabeça. “Estou indo embora.”
Ninguém respondeu.
Virei-me para o portão.
Assim que o toquei, uma voz chamou meu nome.
“Valéria.”
Era meu sogro. Dom Ernesto Rivera.
Por cinco anos, ele mal falou comigo. Sempre quieto. Sempre distante. Sentado sozinho no quintal com seu jornal ou cuidando de seus cactos, como se toda a tensão na casa não tivesse nada a ver com ele.
Virei-me. Ele estava parado ao lado da lata de lixo, segurando um saco preto.
“Se você está indo embora”, disse ele lentamente, “jogue isso fora para mim também.”
Ele levantou o saco levemente. “É lixo.”
Fiquei um pouco surpresa, mas assenti. “Claro.” Peguei a sacola. Estava estranhamente leve.
Acenei com a cabeça uma última vez em despedida. Ele também acenou, sem dizer mais nada.
Então eu saí. O portão bateu atrás de mim, o som marcando o fim de tudo que eu havia suportado durante aqueles cinco anos.
Caminhei pela rua. Passei por casas coloridas. Um cachorro dormindo sob um jacarandá. Ouvi música mariachi ao longe, vinda de uma cantina próxima.
A vida continuou.
Só a minha… tinha acabado de desmoronar.
Disse a mim mesma para não olhar para trás. Para não me lembrar dos silêncios, dos olhares, das palavras dolorosas.
Mas depois de alguns passos, senti que algo estava errado.
Olhei para a sacola. Leve demais.
Uma rajada de vento passou. Pétalas roxas caíram.