Depois de cinco anos dando banho no meu marido paralítico, ouvi-o rir e dizer que eu era “uma enfermeira gratuita”. Naquele dia eu não gritei… naquele dia comecei a tirar tudo dele sem que ele percebesse.

e.

Gostei mais.

Muito mais.

Ri sozinha, com açúcar nos dedos e sol no rosto.

Por cinco anos, achei que amar significava ficar mesmo que isso me destruísse.

Então entendi que amar também significava chamar uma enfermeira, contratar um advogado, abrir janelas, tirar uma cama de hospital da sala e dizer:

“Não vou abandonar uma pessoa doente. Vou abandonar o abuso.”

Esteban achava que me tinha para comida e abrigo.

Tomás achava que eu era uma mulher esperando para ser despejada.

Seus amigos achavam que eu era uma enfermeira gratuita.

E talvez por um tempo eu tenha sido.

Mas até uma mulher usada como móvel aprende a se mover quando descobre que ainda tem pernas.

Naquele dia, eu não gritei.

Não quebrei pratos.

Não joguei conchas nele.

Simplesmente comecei a tirar tudo o que ele nunca deveria ter tido:

meu dinheiro,

meu trabalho incansável,

meu silêncio,

meu medo,

minha vida.

E quando terminei, tudo o que restou em suas mãos foi o que sempre lhe pertenceu:

seu corpo,

seu filho,

suas decisões,

e a solidão peculiar que ele cultivava ao rir da mulher que o apoiava.

Para Esteban.

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