Casei com um zelador só para desafiar meu pai milionário. Mas quando meu pai foi confrontá-lo, ouviu seu sobrenome… e caiu de joelhos.

Mateo não se mexeu.

Arturo Cárdenas tirou um talão de cheques do bolso do paletó e o colocou sobre a mesinha, ao lado do saleiro de plástico e de uma caneca lascada.

“Coloque um preço nisso”, disse ele. “Todo mundo tem um.”

Ana Sofía sentiu o rosto queimar.

“Pai, para com isso.”

“Não se meta nisso, Ana Sofía. Você fez birra. Agora vou resolver isso do jeito que você resolve erros caros.”

Mateo olhou para o talão de cheques sem tocá-lo.

“E se eu não quiser me vender?”

Arturo deu um sorriso seco.

“Não me venha com essa dignidade de novela. Você trabalha limpando o chão de uma clínica. Casou-se com a minha filha em menos de um dia. Quer que eu acredite que foi por amor?”

“Não”, respondeu Mateo. “Quero que ela entenda que nem tudo pode ser comprado.”

“Que bela frase. Provavelmente funciona com quem não sabe somar.”

“Ana Sofía deu um passo em direção a Mateo, mas ele mal ergueu a mão, não para silenciá-la, mas para pedir que se acalmasse.

“Sr. Cárdenas, o senhor não sabe nada sobre mim.”

“Sei o suficiente. Sei que o senhor não é ninguém.”

Mateo baixou o olhar por um instante. Quando o ergueu novamente, exibia uma serenidade que deixou Arturo desconfortável.

“Meu pai também não era ninguém para o senhor, no fim das contas.”

Arturo franziu a testa.

“O que disse?”

“O nome do meu pai era Andrés Reyes.”

O silêncio se fez tão pesado que até o barulho da rua pareceu desaparecer.

Arturo abriu a boca, mas não disse nada.

Mateo continuou:

“Vinte e quatro anos atrás, meu pai tinha uma empresa de limpeza industrial. Pequena, mas honesta. O senhor se associou a ele para conseguir contratos com hospitais.” Depois vieram os documentos adulterados, as dívidas que ele nunca assinou, as auditorias fraudulentas. Sua empresa cresceu. A dele desapareceu.”

Ana Sofía olhou para o pai. Pela primeira vez na vida, viu-o perder a cor.

“Não é verdade”, murmurou Arturo.

Mateo caminhou até uma caixa de papelão ao lado da poltrona. Tirou de lá uma pasta velha, coberta com fita adesiva.

“Meu pai guardava cópias. Ele não as usava porque estava doente, porque tinha medo, porque ainda acreditava que você se desculparia algum dia. Acabou limpando os corredores do mesmo hospital onde costumava assinar contratos.”

Arturo recostou-se na cadeira.

“Seu pai e eu éramos sócios. As coisas deram errado.”

“Não”, disse Mateo. “Você que fez com que dessem errado.”

Ana Sofía sentiu o chão fraquejar sob seus pés. Seu pai, o homem que falava de honra corporativa em revistas, aquele que a pressionou para casar com ele por razões estratégicas, havia construído parte de seu império sobre a ruína de outra família.

“Pai… diga que não é verdade.”

Arturo não respondeu.

Mateo abriu a pasta. Havia cópias de contratos, notas promissórias, cartas e fotografias amareladas. Em uma das fotos, dois jovens se abraçavam em frente a um pequeno escritório. Um era Arturo. O outro, sem dúvida, era o pai de Mateo.

“Minha mãe vendia tamales perto da estação de metrô do Hospital Geral para pagar minha fisioterapia”, disse Mateo, apontando para a perna. “Quando sofri o acidente, meu pai ficou sem seguro, sem empresa e sem casa. Mas ele nunca me ensinou a odiá-lo. Ele me ensinou a não ser como você.”

Arturo ergueu o olhar.

“Eu tinha uma família para proteger.”

“E ele destruiu outra.”

A frase pairou no ar.

Ana Sofía olhou para o seu marido recém-inventado, o homem que não aceitara dinheiro, que a deixara dormir na sua cama enquanto ele dormia no sofá, que não lhe perguntara quanto custava a sua bolsa nem por que chorava silenciosamente enquanto lavava a louça.

Então olhou para o pai.

“Foi por isso que você adotou o sobrenome dele?”, perguntou a Mateo.

Ele assentiu.

“Sim.”

“E mesmo assim casou comigo?”

“Casei com você porque você estava fugindo da mesma mão que um dia destruiu a minha família.”

Arturo deu um passo para trás como se a frase o tivesse atingido em cheio.

Então o celular tocou. Ele olhou para a tela, desligou-o e guardou o aparelho.

“Rodrigo está esperando uma resposta”, disse ele com a voz rouca. “Ainda podemos consertar isso.”

Ana Sofía sentiu algo dentro de si se quebrar pela última vez.

“Não, pai. Você não pode mais consertar a minha vida.”

Mateo colocou o último documento sobre a mesa.

“Eu não mostrei tudo a ele.”

Arturo olhou para a folha de papel. Suas mãos começaram a tremer.

“Onde você conseguiu isso?”

“Onde você conseguiu isso?” Mateo não respondeu imediatamente.

Ana Sofía leu apenas algumas linhas e sentiu como se não conseguisse respirar.

Não era apenas uma antiga traição.

Era a prova de que o casamento que seu pai queria lhe impor estava diretamente relacionado àquela fraude.

E o pior ainda estava por vir.

PARTE 3

Ana Sofía pegou a folha de papel com cuidado, como se pudesse cortá-la.

O documento era um acordo privado entre o Grupo Cárdenas e a família Salvatierra. Estava datado de apenas três meses antes. Não falava de amor, casamento ou futuro. Falava de participação acionária, proteção patrimonial e transferência de direitos sobre uma antiga dívida que, segundo o texto, poderia ser reaberta se alguém da família Reyes apresentasse reclamações.

“Rodrigo não era meu noivo”, disse Ana Sofía, com a voz embargada. “Ele era seu seguro.”

Arturo fechou os olhos.

“As coisas são mais complicadas do que isso.”

“Não”, ela respondeu. “Pela primeira vez, estou vendo as coisas com clareza.”

Mamãe

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