Não havia cartas de amor dentro do envelope.
Não havia fotos.
Não havia nenhum sinal de traição.
Havia documentos autenticados.
Martin puxou a primeira folha de papel, com as mãos tensas, ainda respirando como um touro enjaulado.
Leu o título.
“Contrato de Compra e Venda.”
Então viu seu nome.
Martín Hernández López.
E ao lado, o dela.
Maribel Cruz Hernández.
Em seguida, leu o endereço.
Um terreno de 120 metros quadrados em Tecámac, Estado do México.
Martin piscou.
Leu novamente.
O papel parecia zombar de sua raiva.
“O que é isso?”, murmurou.
Maribel enxugou uma lágrima com o dorso da mão.
“Esta é a nossa terra.”
Ele não respondeu.
Não porque ele não quisesse, mas porque de repente lhe faltava a voz.
Maribel tirou outra folha de papel do envelope.
Era um plano simples.
Uma casinha com dois quartos, uma sala de estar, uma cozinha, um banheiro, uma lavanderia e um pequeno jardim na frente.
Em um canto, com uma caneta azul, alguém havia escrito:
“Espaço para buganvílias.”
Martin engoliu em seco.
Quando saíam juntos, ele sempre dizia que um dia teria uma casa com uma buganvília na entrada, como a da avó em Oaxaca.
Ele estava brincando.
Dizia que, no momento, eles não tinham dinheiro nem para pagar o aluguel integral do quarto onde moravam.
Maribel nunca zombou desse sonho. Simplesmente o guardou para si.
“Ernesto não está se escondendo”, disse ela, com a voz trêmula. “O terreno é dele. Terminaremos de pagar amanhã.”
Martin ergueu o olhar.
A raiva foi se dissipando lentamente de seu rosto, como tinta velha na chuva.
“Já terminamos?”
“Sim.”
Ele abriu o caderno quadriculado que sempre mantinha sobre a mesa.
Martin o odiava há anos.
Para ele, parecia um símbolo de sua humilhação.
Todos os recibos, contas e economias estavam ali.
Cada página continha datas, valores, pagamentos, créditos e pequenas anotações.
“Subtrair 100 do frango.”
“Não comprar uma blusa.”
“Guardar as horas extras do Martin.”
“Costura da Sra. Lety: 250.”
“Pagamento do Ernesto: 1.800.”
“Restam 23.400.”
“Restam 12.000.”
“Restam 3.500.”
A última linha dizia:
“Pagamento final: amanhã.” Martin sentiu as pernas fraquejarem.
Sentou-se na cadeira mais próxima.
Maribel permaneceu de pé, o vestido vermelho gasto e os olhos cheios de uma tristeza que ele nunca havia notado.
“Cinco anos atrás, vi aquele terreno anunciado num pedaço de papelão colado na porta de uma loja”, explicou ela. “Era longe, sim. Não era um lugar chique. Mas era o único preço que podíamos pagar.”
Martin cobriu a boca com a mão.
“Por que você nunca me contou?”
Maribel soltou uma risada entrecortada.