Durante 12 anos, encarei o rosto da mulher tatuado no ombro do meu marido e me perguntei por que ele nunca me disse quem ela era. Então, numa tarde, esbarrei com ela por acaso dentro de uma padaria, e o medo em seus olhos me fez perceber que eu vinha fazendo a pergunta errada o tempo todo.
Desde o primeiro dia em que conheci Ryan, notei a tatuagem. Não era um nome, nem uma rosa, nem um daqueles símbolos abstratos que as pessoas diziam ter um significado profundo.
Era o rosto de uma mulher, um retrato detalhado. Ela parecia jovem, talvez no início dos seus vinte anos, com cabelos escuros, olhos pensativos e uma tristeza na expressão que parecia nunca desaparecer.
A princípio, não disse nada. Tínhamos acabado de começar a namorar, e eu queria ser o tipo de namorada que não se sentia ameaçada por coisas que existiam antes dela aparecer.
Toda vez que Ryan usava uma regata, lá estava ela. Toda vez que íamos à praia, ela estava lá. Toda vez que ele se virava na cama, lá estava ela.
Observando. Por fim, a curiosidade venceu.
“Quem é ela?”
Ryan mal olhou para a tatuagem. “Ninguém.”
Não o suficiente para começar uma discussão, mas o suficiente para ficar na minha cabeça.
Vários anos depois, quando ficamos noivos, toquei no assunto novamente. Dessa vez, ele riu.
“Não tem nada demais.”
“Então, quem é ela?”
“Minha colega estava aprendendo tatuagem realista. Ela baixou uma foto aleatória da internet e precisava de alguém para praticar.”
“É verdade.”
Mesmo assim, eu sabia que ele estava mentindo. Só não fazia ideia do porquê.
Depois que nos casamos, a tatuagem começou a me incomodar cada vez mais. Não era porque eu suspeitava que Ryan estivesse me traindo. Era porque as pessoas não tatuam o rosto de um estranho no corpo para sempre.
Não desse jeito. Não com esse nível de detalhe.
Finalmente, pedi para ele cobrir a tatuagem. Eu não estava pedindo para ela removê-la. Eu só queria outra coisa. Uma bússola. Uma cordilheira. Um dragão. Qualquer coisa.
No começo, ela concordou. Depois, os meses se passaram. O tatuador mudou de artista. O dinheiro ficou curto. O trabalho ficou mais intenso. Sempre havia uma nova desculpa.
Eventualmente, parei de perguntar. Não porque eu não me importasse mais, mas porque estava exausto. Exausto de perder a mesma discussão. Exausto de me sentir competindo com uma mulher cujo nome eu nem sabia.
Então, aprendi a ignorá-la.
Ou pelo menos era o que eu pensava.
Até a semana passada.
Eu estava na fila de uma padaria quando a mulher à minha frente se virou um pouco. Meu estômago se contraiu. Eu conhecia aquele rosto. Não da escola, não do trabalho, não de lugar nenhum da minha vida real.
Por um instante, achei que minha mente estivesse me pregando peças. Então, ela se virou um pouco mais. Os mesmos olhos. Os mesmos lábios. Até a pequena pinta perto do queixo. Ela está mais velha agora, mas ainda é inegavelmente ela.
Minhas mãos começaram a tremer. Devo tê-la encarado por quase um minuto. Finalmente, antes que eu perdesse a coragem, dei um passo à frente.
“Com licença.”
Ela se virou.
“Isso vai soar estranho, mas você conhece alguém chamado Ryan?”
Toda a cor sumiu do seu rosto. Ela deu um pequeno passo para trás. Li sua expressão. Seu rosto estava vermelho, não de confusão ou surpresa.
Medo.
Meu coração estava acelerado. “Você está bem?”, perguntei.
Por vários longos segundos, ela não disse nada. Então, olhou por cima do meu ombro em direção à entrada da padaria, como se estivesse verificando se alguém a observava.
Quando finalmente respondeu, sua voz era quase inaudível.
Assenti com a cabeça. De alguma forma, sua expressão piorou ainda mais. O medo permaneceu, mas agora outra emoção surgiu.
Tristeza.
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