“Pare de fingir que está tudo bem!”, gritou minha irmã no próprio casamento. Meus pais aplaudiram. Ela não sabia que o lugar era meu e que seu “convidado de honra” tinha vindo me ver.

Há silêncios que pesam mais do que qualquer grito. O silêncio no carro, por exemplo.

Meu velho Nissan Tsuru de 98, que eu carinhosamente chamava de “O Valente”, chacoalhava pelas ruas de paralelepípedos de San Miguel de Allende. O motor fazia um ruído surdo e constante, um som que me era familiar, quase reconfortante. Mas naquela noite, parecia amplificar a tensão que emanava do banco do passageiro, onde minha mãe, Amara, se agarrava à sua bolsa de grife como se fosse uma tábua de salvação em meio a um oceano de vergonha.

Ela não disse nada, mas sua postura rígida e o olhar fixo nas fachadas luxuosas das casas diziam tudo. Ela tinha vergonha de mim, do meu carro, da vida que eu representava, uma vida que não se encaixava em seu álbum de família perfeito.

O jantar foi na casa dos meus pais. Uma casa que gritava sucesso em cada canto. Mármore importado, arte contemporânea que provavelmente custava mais do que meu apartamento, e um cheiro de lavanda tão forte que parecia uma tentativa desesperada de purificar o ar de qualquer vestígio de mediocridade.

Meu pai, Bosco, nos recebeu na porta. Usava um relógio de ouro que brilhava sob as luzes do hall. Deu-me um abraço rápido, quase uma formalidade, e seus olhos percorreram meu ombro para garantir que nenhum vizinho tivesse me visto chegar com aquela cafeteira.

“Elara, que bom que você está aqui”, disse ele, embora seu tom sugerisse o contrário. “Lidia e Darío acabaram de chegar. Estão no terraço.”

Ah, sim. Lidia e Darío. O evento principal.

Minha irmã mais nova, a princesa da família, e seu noivo, o genro perfeito em pessoa. Os encontramos no terraço com taças de vinho branco nas mãos, rindo de algo que Darío acabara de dizer. Lídia, de vinte e oito anos, usava um vestido de seda que se ajustava ao seu corpo como uma segunda pele. Darío, de trinta e três, ostentava uma camisa de linho impecável e um sorriso que não chegava aos olhos.

Eles eram o casal perfeito para a capa de uma revista. E eu, de trinta e dois, com meu vestido simples de uma loja local e o cabelo preso num coque desarrumado, era a nota dissonante em sua sinfonia perfeita.

“Maninha”, exclamou Lídia, aproximando-se para me mandar dois beijos. “Pensei que você tivesse se perdido ou que seu carro finalmente tivesse quebrado.”

Darío deu uma risadinha.

“Elarita, está na hora de você arrumar um emprego de verdade, com um bom bônus de fim de ano. Você poderia comprar algo decente.”

Eu sorri. Um sorriso que eu não sentia de verdade.

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