Durante anos, cuidei do meu vizinho de 89 anos, na esperança de receber uma pequena herança após sua morte. Mas, quando ele faleceu, seus filhos e netos apareceram e colocaram tudo em seus nomes. Um dia, uma ligação de um número privado me deixou arrepiada…

PARTE 2
Na primeira noite na casa do lago, mal consegui dormir.

O vento sacudia as venezianas e o fogão rangia como se alguém estivesse caminhando sobre a lenha. Eu tinha a carta de Dom Aurélio dobrada no bolso do casaco e a li tantas vezes que acabei memorizando a última frase: “Meus filhos esperavam minha morte. Você esperava meu telefonema.”

Pensei que aquele era o fim da história.

Eu estava enganado.

Na manhã seguinte, saí para a varanda com uma xícara de chá. O lago estava envolto em névoa e o silêncio era tão profundo que eu conseguia ouvir meus próprios passos no assoalho úmido.

Então vi um carro subir a estrada de terra.

Preto. Grande. Elegante demais para aquele lugar perdido nas montanhas.

Um homem na casa dos cinquenta saiu do carro. Terno escuro, óculos caros, o mesmo nariz de Dom Aurélio.

Seu filho mais velho.

Raúl.

Ele me encarou por alguns segundos antes de falar.

“Então era verdade.”

Não respondi.

“O advogado escondeu essa propriedade de nós.”

“Ele não escondeu. Estava cumprindo os desejos do pai.”

Raúl soltou uma risada curta.

“Quanto você quer?”

A pergunta me atingiu mais forte que um insulto.

“Como assim?”

“Todo mundo tem um preço. Diga quanto e acabamos com essa farsa.”

Por um instante, entendi muitas coisas sobre aquela família.

Para eles, tudo era uma transação.

A casa, a herança, as visitas, até o luto.

Tudo tinha um preço.

Veja o resto na próxima página.

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