PARTE 2 Às seis da manhã, enquanto a casa ainda dormia, em silêncio, arrumei minhas últimas coisas. Duas malas, uma caixa com documentos importantes, meu uniforme de trabalho e a foto da minha mãe que sempre ficava na minha mesa de cabeceira. Não chorei. Isso foi o que mais me surpreendeu. Deixei um bilhete colado na geladeira: “Segui seu conselho. Estou indo embora. De hoje em diante, cada um paga a sua parte.” Dirigi até Tonalá com o coração acelerado, mas assim que abri a porta da minha nova casinha, senti algo que não sentia há anos: paz. Cheirava a tinta fresca, chão limpo, um novo começo. Ao meio-dia, mandei uma mensagem para o meu pai: “Não vou fazer mais nenhum depósito. Vou cancelar os pagamentos que foram debitados no meu cartão.” Nem dez minutos haviam se passado quando começou o desfile de ligações. Meu pai. Claudia. Diego. Meu pai de novo. Depois, minha tia Gloria.
Depois, um primo que nunca falava comigo. Não atendi. Às quatro da tarde, eles bateram na minha porta como se fossem arrombá-la. Espiei pela janela e vi meu pai com o rosto vermelho, Claudia atrás dele e Diego encostado no carro, fingindo calma. Abri apenas as portas necessárias. “Que jogo é esse?”, perguntou meu pai, indignado. “Não é jogo nenhum. Vocês me mandaram embora. Eu fui embora.” Claudia olhou em volta, examinando minha casa com uma raiva mal disfarçada. “E de onde veio essa casa?” “Do meu trabalho.” Diego riu. “Aham, sei.” Então peguei meu celular e mostrei a eles o e-mail de confirmação do financiamento imobiliário, com meu nome completo na tela. O sorriso dele sumiu. Meu pai engoliu em seco. “Mariana, você não pode simplesmente nos deixar assim. A conta de luz vence amanhã. A da internet também. E o carro do Diego…” “O Diego paga o carro do Diego”, interrompi. Diego se endireitou. “Tenho entrevistas esta semana, pelo amor de Deus!” “Então ele vai de ônibus.” Claudia franziu os lábios. “Você está punindo sua família por algo que disse no calor do momento.” “Não.” Recuso-me a pagar por pessoas que me humilham a sangue frio. Meu pai tentou entrar, mas coloquei o pé atrás da porta. “Não entre.” Pela primeira vez, vi-o surpreso. Como se nunca tivesse imaginado que eu pudesse bater a porta na cara dele. Eles saíram furiosos. Mas não terminou aí. Naquela noite, as mensagens começaram. Que eu era ingrata. Que minha mãe ficaria decepcionada. Que Claudia estava chorando por minha causa. Que Diego poderia perder “uma grande oportunidade” se não tivesse um carro. Bloqueei metade do mundo. Mas no dia seguinte, quando verifiquei meu e-mail, encontrei um alerta do banco: uma tentativa de compra recusada em uma loja de departamentos. Eu não havia comprado nada. Verifiquei meu relatório de crédito e senti um frio na barriga. Havia dois cartões de crédito em meu nome que eu nunca havia solicitado. Um deles tinha cobranças de roupas, tênis, gasolina e até reservas em um motel na Avenida Vallarta. O endereço listado não era o da minha antiga casa. Era o apartamento da namorada do Diego. Lembrei-me então de quando, meses antes, minha carteira sumiu durante um fim de semana e Diego a “encontrou” debaixo do sofá, segundo ele, por acaso. Minhas mãos tremiam, mas não de medo. De raiva. Salvei capturas de tela, baixei extratos bancários, bloqueei meu crédito e marquei uma consulta com um advogado recomendado por um colega de trabalho. Naquela noite, Diego me mandou uma mensagem de um número desconhecido: “Dá uma maneirada, ou todo mundo vai saber coisas sobre você”. Encarei a tela em silêncio. No dia seguinte, antes que pudessem inventar outra mentira, eu já tinha o dossiê pronto para destruir a história deles. O que você acha que Diego estava escondendo, e até onde você acha que Mariana teve que ir para se defender? O final muda tudo.
PARTE 3