Ninguém queria casar com a filha inválida do coronel, então ele a confiou ao escravo mais durão (Minas, 1877).

O sangue ainda estava fresco no chão quando ouvi as palavras que mudariam para sempre o destino de uma jovem que nunca conhecera o amor. “Se nenhum homem decente a quiser, dê-a a Joaquim. Ao menos assim ela terá alguma utilidade.”

Era 15 de março de 1877 e eu acabara de presenciar a cena mais humilhante que uma filha poderia suportar. Meu nome é Joaquim. Tenho 28 anos, sou carpinteiro escravo na fazenda Boa Esperança, no Vale do Paraíba, Minas Gerais. Há três anos, perdi minha esposa, Maria, e minha filha pequena, Ana, que foram vendidas para uma fazenda distante quando seu antigo dono morreu. Desde então, vivo apenas para trabalhar: sem esperança, sem amor, sem futuro. Mas naquela tarde, tudo mudou quando Violeta Ferreira foi rejeitada por seu quinto pretendente em dois anos.

Violeta tinha 16 anos e era filha do Coronel Antônio Ferreira, um dos homens mais ricos e influentes da região. Mas ela carregava o que sua família considerava uma maldição: nascera com a perna direita atrofiada e um problema de fala que a fazia gaguejar quando estava nervosa. Sua mãe morrera no parto e, desde então, ela vivera escondida na propriedade, um segredo vergonhoso que o coronel preferia que ninguém soubesse. Eu a vira apenas algumas vezes, sempre à distância, sempre sozinha, sempre com uma expressão de profunda tristeza que me partia o coração. Ela mancava visivelmente, apoiando-se em uma bengala de madeira que eu fizera anos antes, quando o coronel me ordenou que construísse algo para a menina se apoiar.

Naquela tarde terrível, eu consertava as janelas da Casa Grande quando ouvi vozes agitadas vindas da sala de estar. Através da persiana entreaberta, pude ver toda a cena. Violeta estava sentada em uma poltrona, vestida com seu melhor vestido azul, as mãos tremendo no colo. Diante dela, um jovem camponês chamado Rodrigo Almeida a examinava como se fosse gado no mercado.

“Coronel”, disse Rodrigo, com a voz carregada de um desprezo mal disfarçado. “Com todo o respeito, não posso aceitar esta situação.”

“Que situação?” perguntou o Coronel Antônio, embora soubesse perfeitamente o que o jovem queria dizer.

“Sua filha é… deficiente. Como posso apresentá-la à sociedade? Como posso ter filhos normais com uma mulher assim?”

As palavras atingiram Violeta como um chicote. Vi suas mãos tremerem ainda mais. Vi lágrimas começarem a brotar silenciosamente. Ela tentou falar, mas só conseguiu gaguejar: “Eu… eu posso… eu posso aprender.”

“Aprender o quê?” Rodrigo riu cruelmente. “A andar ereto? A falar como pessoas normais?”

Dona Eulália, madrasta de Violeta, levantou-se da cadeira onde observava tudo com uma satisfação mal disfarçada. “Rodrigo tem razão, Antônio. A menina é um fardo para a nossa família.”

Eulália havia se casado com o coronel cinco anos antes; era uma viúva ambiciosa que via Violeta como um obstáculo aos seus próprios planos. Ela tinha dois filhos do primeiro casamento e sempre deixara claro que Violeta era um estorvo indesejado. “Talvez”, continuou Eulália, “seja hora de aceitar a realidade. Nenhum homem de boa reputação vai querer se casar com ela.”

Rodrigo assentiu. “Exatamente. Prefiro ficar solteiro a me casar com uma inválida.”

Violeta soltou um soluço que partiu meu coração. Levantou-se com dificuldade, apoiando-se na bengala, e tentou sair da sala com a pouca dignidade que lhe restava.

“Aonde você vai?”, perguntou Eulália friamente.

“Vamos… para o meu quarto”, gaguejou Violeta.

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