PARTE 1
“Se você caminhar até o altar com qualquer outro homem que não seja aquele que eu escolhi, você deixará de ser minha filha.”
Ana Sofía Cárdenas ouviu essas palavras, a mão ainda repousando sobre o guardanapo de linho, na enorme sala de jantar da casa da família em Lomas de Chapultepec. Seu pai, Arturo Cárdenas, não gritou. Nunca precisou. Sua voz era baixa, calculada, fria como a mesa de mármore onde a sentava todos os domingos para lembrá-la de que ela não era uma mulher, mas uma assinatura pendente.
“Pai, eu não vou me casar com Rodrigo Salvatierra”, disse ela, sentindo a garganta apertar.
Arturo colocou o copo sobre a mesa.
“Rodrigo tem contatos em Monterrey, família em Querétaro e acesso a contratos que nos beneficiam. O amor se aprende, Ana Sofía. A estabilidade se constrói.”
“Isso não é estabilidade. É uma gaiola com um sobrenome.”
Sua mãe baixou o olhar. Como sempre. Naquela casa, até o silêncio era obediente.
Durante anos, Ana Sofía vivera com motorista, cartões de crédito, roupas elegantes e a sensação de não ter uma única porta só para si. Ela seguia as decisões do pai, viajava para onde ele autorizava, sorria para os empresários que a olhavam como se ela já fizesse parte de um pacote de investimentos. Agora, queriam casá-la à força.
Naquela tarde, após a discussão, ela saiu caminhando sem seu guarda-costas. Desceu a Avenida Reforma com os cabelos soltos, a maquiagem intacta e o coração apertado. Não sabia para onde ir. Só queria ouvir barulho de verdade: caminhões, vendedores ambulantes, latidos de cachorros, a vida sem ser convidada.
Perto de uma pequena praça no bairro Doctores, ela o viu.
Um jovem varria folhas secas em frente a uma clínica particular. Vestia um uniforme cinza de zelador, uma perna estava um pouco rígida e seus movimentos tinham uma calma estranha. Não parecia derrotado. Parecia ter o controle do próprio ritmo.
Ana Sofía o encarou por mais tempo do que seria prudente.
Ele ergueu o olhar.
“Perdeu alguma coisa, senhorita?”
Ela respirou fundo. A ideia a atingiu como uma tempestade absurda, mas também como uma saída.
“Preciso me casar.”
O homem piscou.
“Bem, parabéns. E o noivo?”
“Esse é o problema”, respondeu ela. “Não tenho um. E preciso de um hoje.”
Ele soltou uma risada curta, sem sarcasmo.
“Está me pedindo em casamento?”
“Sim.”
“Assim, do nada?”
“Como um acordo. Um contrato. Meu pai quer me obrigar a casar com um homem que eu não amo. Se eu aparecer casada, ele não poderá mais me usar.”
O homem encostou a vassoura na parede.
“Meu nome é Mateo Reyes. E você parece alguém que não dorme bem há meses.”
Ana Sofía pegou o celular e mostrou a ele uma foto do pai, tirada de uma revista de negócios.
Mateo parou de sorrir. Encarou a imagem por alguns segundos a mais do que devia.
“Arturo Cárdenas é seu pai?”
“Sim. Você o conhece?”
“Conheço o nome.”
Ela não entendeu a mudança em sua expressão, aquela sombra que passou pelos olhos e desapareceu rapidamente.
“Não quero dinheiro”, disse ela. “Posso te pagar pelo favor, mas depois você está livre. Não vou te incomodar.”
Mateo a observou como se procurasse uma armadilha por trás de seus cílios.
“Um casamento civil não é algo que se possa fazer assim, como comprar tacos.”
“Eu já tinha um horário marcado no Cartório para revisar os documentos com o Rodrigo. Meu pai cuidou de tudo. Só precisamos apresentar o noivo. Meus documentos estão prontos. Posso pagar a multa, mudar o nome, o que for.”
“Isso parece ilegal.” “Não. Parece desespero.”
Mateo ficou em silêncio. Então, pegou sua velha mochila.
“Se eu fizer isso, não será por dinheiro.”
“Então por quê?”
“Porque conheço a cara de quem está encurralado.”
Horas depois, Ana Sofía estava diante de um juiz no Cartório de Registro Civil, assinando os papéis ao lado de um homem que conhecera naquela mesma tarde. Não havia vestido branco, nem flores, nem música. Apenas duas testemunhas improvisadas, uma caneta azul e uma decisão que a abalou profundamente.
Ao saírem, Mateo preencheu o documento.
“Bem, Sra. Reyes Cárdenas, acho que acabamos de nos meter em um grande problema.”
Ela sorriu pela primeira vez em muito tempo.
No dia seguinte, Arturo recebeu a notícia.
Ele ligou para ela 18 vezes. Então, chegou uma mensagem:
“Vou amanhã. Quero conhecer o prefeito que arruinou o nome da minha família.” Ana Sofía leu a mensagem no pequeno apartamento de Mateo, entre uma mesa bamba, duas cadeiras diferentes e uma panela de feijão fervendo no fogão.
Mateo simplesmente disse:
“Então amanhã saberemos quanto pesa a sua liberdade.”
Mas quando Arturo entrou por aquela porta em seu terno italiano, com os olhos cheios de desprezo, ele não olhou primeiro para a filha. Olhou para Mateo como se tivesse encontrado lixo em sua sala de estar.
E a primeira coisa que ele disse fez Ana Sofía sentir vergonha, raiva e medo ao mesmo tempo.
“Eu não vim falar com a minha filha. Vim comprar a sua saída.”
PARTE 2
Continua!