PARTE 1
“Se você realmente estiver em trabalho de parto, chame um Uber. Estamos ocupados.”
A frase caiu sobre a mesa como um prato quebrado.
Mariana Salazar estava na sala de jantar dos pais, o vestido úmido colado às pernas, uma mão sob a enorme barriga e a outra agarrada ao encosto de uma cadeira para não se curvar de dor. Ela tinha 32 anos, estava grávida de 37 semanas e sentia uma contração que parecia que alguém estava puxando seus ossos por dentro.
A sala de jantar cheirava a rosbife, vinho tinto caro e cera de limão — o mesmo aroma de todos os encontros familiares em sua casa no bairro de Del Valle. Aniversários, Natal, aniversários de casamento, almoços de domingo. Ela havia aprendido a mesma regra em todos eles: sempre havia lugar para Lorena, sua irmã mais nova. Para Mariana, só havia lugar quando ela não estava atrapalhando.
Aquela noite não era um jantar comum. Os pais dela, Carmen e Ramiro, tinham organizado uma reunião para discutir o casamento de Lorena com Sebastián, um jovem advogado bem-educado de família rica. Carmen trouxe a porcelana fina. Ramiro abriu uma garrafa e se gabou dela três vezes antes de servir.
Mariana quase não foi.
As contrações tinham começado uma hora antes, ainda espaçadas, mas ficando mais fortes. Do seu apartamento em Narvarte, ela mandou uma mensagem para Lorena:
“Estou me sentindo mal. Estou com contrações. Talvez eu não consiga ir.”
A resposta veio imediatamente:
“Não comece, Mariana. Mamãe está nervosa. Hoje é importante para mim.”
Essa era Lorena. Ela conseguia transformar a emergência de qualquer outra pessoa em um ataque pessoal.
Mariana respirou fundo, pegou as chaves e foi.
Durante o jantar, ninguém perguntou como ela estava se sentindo. Carmen falou de flores brancas, um jantar de três pratos e um local em San Ángel que “merecia uma noiva como Lorena”. Ramiro assentiu com orgulho. Lorena mostrava fotos no celular. Sebastián era o único que olhava para Mariana de vez em quando com preocupação.
Quando uma contração mais forte apertou sua garganta, Mariana soltou um gemido.
“Você está bem?”, perguntou Sebastián.
“Acho que sim”, disse ela, mas sua voz falhou.
Carmen franziu os lábios.
“Oh, Mariana, por favor, não diga que está se sentindo melhor hoje.”
Mariana olhou para ela, incrédula.
“Mãe, não é algo que eu possa agendar.”
“É que finalmente estamos todos em paz”, murmurou Carmen. “Não faça disso um grande problema.”
Outra contração veio como uma onda negra. Mariana se curvou sobre a mesa e agarrou a toalha. Ramiro olhou para cima.
“Com que frequência?”
“A cada cinco minutos, talvez menos.”
A sala de jantar ficou em silêncio.
Sebastián puxou a cadeira para trás.
“Vou levá-la ao hospital.”
Mas Lorena segurou seu braço.
“Não. Ela está exagerando.”
“Como assim?”, disse ele.
“A Mariana sempre faz isso. Ela sempre fica tensa quando não é o centro das atenções.”
Mariana sentiu mais dor com aquelas palavras do que com a contração. Porque não eram novidade. Eram o mesmo refrão de sempre da família.
Mariana exagera.
Mariana consegue fazer isso sozinha.
Mariana entende.
Mariana não precisa de tudo isso.
Então ela sentiu um estalo interno, quente e inevitável. O líquido escorreu pelas suas pernas e formou uma poça brilhante embaixo da cadeira.
Ninguém podia fingir que não viu.
“Minha bolsa estourou”, disse Mariana. “Preciso ir ao hospital.”
Por um segundo, ela pensou que sua mãe se levantaria. Que seu pai procuraria as chaves. Que Lorena se calasse.
Mas todos olharam para Lorena.
Ela soltou um suspiro irritado.
“Uma amiga minha teve a bolsa rompida e levou dois dias. Não é nada demais.”
Sebastián se levantou.
“Isso não significa que ela esteja bem.”
“Se você sair, vai estragar o jantar”, disse Lorena.
Mariana olhou para a mãe.
“Mãe, por favor.”
Carmen piscou, dividida entre a filha grávida e sua filha favorita.
“Bem… se você acha necessário.”
Se você acha.
Como se Mariana tivesse dito que poderia chover.
Outra contração a fez arfar. Sebastián pegou as chaves.
“Vou pegar o carro.”
Lorena se levantou abruptamente.
“Você não vai a lugar nenhum.”
Ele a olhou como se a tivesse conhecido há pouco tempo.
“Sua irmã está em trabalho de parto.”
“Minha irmã quer atenção.”
Ramiro pousou o copo na mesa. Nem sequer se levantou.
“Mariana, se você está tão preocupada, chame um Uber. Estamos ocupados.”
O silêncio que se seguiu não era vazio. Era uma sentença.
Mariana pegou a bolsa, as chaves e o celular. Caminhou em direção à porta, o vestido molhado, o corpo tremendo e a dignidade por um fio.
Ninguém a seguiu.
Apenas Sebastián apareceu na entrada.
“Mariana”, disse ele, pálido. “Sinto muito.”
Ela não respondeu. Entrou no carro, ligou o motor e dirigiu sozinha pela Avenida División del Norte, com as contrações a castigando e as lágrimas embaçando sua visão.
Naquela noite, enquanto sua família continuava a comer frios e a falar sobre arranjos de mesa, Mariana chegou sozinha ao pronto-socorro.
E antes do amanhecer, os médicos correram por um corredor, empurrando a maca em direção à sala de cirurgia, enquanto uma enfermeira lhe fazia uma pergunta que lhe partiu o coração:
“Quem devemos contatar como familiar responsável?”
M
Ariana fechou os olhos.
E disse o nome de uma vizinha.
PARTE 2