Entrei com ela. Marisol recolhia os pratos descartáveis como se nada tivesse acontecido. Minha mãe limpava a mesa e meu pai comia bolo sentado no sofá.
“O que vocês fizeram com o cabelo da minha filha?”
Marisol nem sequer se mostrou constrangida.
“Pedimos para ela fazer um rabo de cavalo. Ela não quis. Então, cortamos.”
“Como assim?”
Minha mãe suspirou.
“Não faça tanto drama, Lucía. É só cabelo.”
Marisol acrescentou, com a voz carregada de veneno:
“Valeria estava chorando. Era aniversário dela, e sua filha chegou se achando a rainha da festa. O que vocês esperavam que fizéssemos?”
Olhei para Sofía. Ela estava tremendo.
Não gritei. Não quebrei nada. Apenas peguei na mão dela e saímos.
Mas, ao fechar a porta, ouvi meu pai dizer:
“Isso vai lhe ensinar uma lição.”
E foi aí que entendi que aquilo era só o começo.
Eu não conseguia acreditar no que estava prestes a acontecer…
No caminho para casa, Sofía mal disse uma palavra. Ela ficava mexendo no cabelo como se ainda não entendesse para onde tinha ido. Eu dirigia com as mãos agarradas ao volante com tanta força que meus dedos doíam.
Quando chegamos, preparei um chá de camomila para ela. Ela estava sentada na cozinha, usando um moletom largo, com as pernas encolhidas e o olhar distante.
Então ela pronunciou a frase que me destruiu completamente.
“Eles me seguraram, mãe.”
Coloquei a xícara sobre a mesa.
“O que você disse?”
“Eu disse que não. Tia Marisol me empurrou para uma cadeira. Minha avó me agarrou pelos braços. Meu avô disse que seria uma lição para mim. E Vale estava gritando para que cortassem minha testa também.”
Senti náuseas.
“Alguém te ajudou?”
Ela balançou a cabeça negativamente.
“O Mateo estava gravando com o tablet. Ele estava rindo. Disse que ia mandar para o grupo da família.”
Foi aí que o medo passou. Comecei a me sentir mais lúcida.
“Sofia, o que eles fizeram não foi uma brincadeira. Eles te tocaram sem permissão, te imobilizaram e te humilharam. Isso é agressão.”
Ela olhou para cima.
“Então eu não estou exagerando?”
Me ajoelhei na frente dela.
“Não, meu amor. Eles querem que você pense isso porque convém a eles.”