Naquela tarde, enquanto dirigia de volta para o bairro, Valeria ensaiou como chorar em frente ao retrovisor. Seus olhos estavam vermelhos, suas mãos tremiam. Não era fingimento; ela sentia um terror genuíno. Estava apavorada com a possibilidade de Mateo, o homem que a abraçara à noite quando tinham apenas 43 pesos no cartão de débito, se transformar em um estranho ao ouvir a monstruosa quantia de 200 milhões.
Quando entrou na casa, Mateo estava na pequena cozinha. Vestia o uniforme de técnico de refrigeração, os ombros cobertos de poeira e o cabelo encharcado de suor depois de passar 12 horas instalando aparelhos de ar-condicionado nos telhados escaldantes da cidade. Uma panela de sopa de macarrão com linguiça picada fervia no fogão de quatro bocas.
Ele se virou e lhe deu um sorriso cansado, mas afetuoso.
“Você já está em casa, meu amor? Estou preparando um jantar cinco estrelas para você. Macarrão em promoção e salsichas duas por uma.”
Em qualquer outra ocasião, Valéria teria caído na gargalhada. Mas naquela tarde, ela largou a bolsa na cadeira de plástico e desabou em lágrimas. Mateo desligou o fogão imediatamente.
“Valéria? O que aconteceu, querida?”
Ela baixou o rosto, fingindo estar devastada.
“Fui demitida do meu emprego…”
A cozinha ficou em um silêncio sepulcral. Valéria fechou os olhos, preparando-se para as reclamações que qualquer marido preocupado faria: “Como vamos pagar a hipoteca?”, “Como vamos pagar a conta de luz?”, “O que você fez para ser demitida?”
Mas Mateo não fez nenhuma dessas perguntas. Deu um passo em sua direção, ajoelhou-se no chão de linóleo gasto e, sem hesitar, tirou a aliança.
Valéria congelou.
“O que você está fazendo?”, murmurou ela.
Mateo colocou o anel de ouro de 10 quilates na palma da mão de Valeria e fechou delicadamente seus dedos. Sua voz era rouca, mas firme.
“Venda isso amanhã, assim que acordar.”
O coração de Valeria afundou.
“O quê?”
“Não vale muito, eu sei. Compramos em uma casa de penhores, lembra?” Mateo sorriu, com os olhos brilhando. “Mas você vai conseguir alguma coisa. Vai ajudar com as compras do mês e evitar que você fique estressada enquanto procura outro emprego. Se for preciso, vendo minhas ferramentas ou faço turnos extras. Você não está sozinha nisso.”
Valéria sentiu sua alma se despedaçar em mil pedaços. Seu teste tinha sido uma crueldade imperdoável, não contra ele, mas contra si mesma por duvidar do único homem que realmente a amava.
Mas antes que ela pudesse confessar a verdade e pedir seu perdão, o celular de Mateo começou a vibrar descontroladamente sobre a mesa. A tela acendeu com um nome: Jimena.
Mateo franziu a testa e rejeitou a chamada. Segundos depois, chegou uma mensagem de texto. Mateo a leu e seu rosto empalideceu.
Ele mostrou a tela para Valeria. A mensagem dizia:
“Diga à sua esposa, aquela inútil, para parar de se fazer de vítima. Roberto ouviu os caixas do Oxxo comentando que a mulher de Tsuru cinza…”