Parte 1
Cheguei a Veracruz antes do amanhecer.
O ônibus vinha de Ciudad del Carmen e, depois de quase quatorze horas sentado, minhas costas pareciam uma tábua e meus joelhos, cheios de areia. Eu carregava uma sacola de pano velha no colo. Dentro dela, uma camisa branca recém-lavada, sapatos pretos que eu havia engraxado duas vezes e uma caixinha de pão doce, daquele tipo coberto de açúcar que minha filha adorava quando era pequena.
Meu nome é Efraín Morales.
Não sou soldado. Não sou funcionário público. Não uso ternos nem relógios caros.
Toda a minha vida trabalhei entre motores de barco, redes rasgadas, diesel, sal e peixe fresco. No porto, me conhecem pelas minhas mãos, não pelo meu sobrenome. Se um motor não pega às quatro da manhã, me procuram. Se um barco volta com o casco rasgado por uma pedra, me chamam. Se o mar fica agitado e alguém precisa sair, eles me ligam também.
Mas naquele dia eu não ia para o porto.
Naquele dia eu ia ver minha filha, Valeria Morales, se formar na Escola Militar Naval Heroica de Antón Lizardo.
Três semanas antes, ela tinha me mandado uma mensagem:
“Pai, você tem que vir. Não seria a mesma coisa sem você.”
Isso foi o suficiente para mim.
Trabalhei em turnos duplos, consertei motores à noite, vendi algumas ferramentas que doeram mais do que o dinheiro e juntei o suficiente para a passagem de ônibus. Eu não queria chegar de mãos vazias. Também não queria que Valeria sentisse que o pai dela sempre chegava cansado, sujo e atrasado.
Então, quando o ônibus chegou ao terminal, fui ao banheiro, lavei o rosto, troquei de camisa e pentei o cabelo com água em frente a um espelho arranhado. Olhei para as minhas mãos. Esfreguei-as até minha pele ficar vermelha, mas as manchas de óleo não desapareceram completamente.
Suspirei.
“Não a envergonhe hoje, Efraín”, disse a mim mesmo.
Peguei um táxi para a escola. O motorista olhou para mim pelo retrovisor.
“Você vai trabalhar lá?”
“Não”, respondi. “Vou ver minha filha se formar.”
O homem sorriu levemente.
“Então, siga o caminho certo hoje, chefe.”
Não sei por que essa frase ficou na minha cabeça.
Quando cheguei, o sol já começava a se pôr sobre os prédios brancos. Bandeiras tremulavam na brisa do mar. Famílias entravam, bem vestidas, perfumadas, usando óculos escuros, carregando enormes buquês, com seus celulares prontos para filmar. Havia mães chorando de orgulho e pais ajeitando seus paletós como se também estivessem prestes a se formar.
Saí do táxi com minha sacola de pano.
E os vi imediatamente. Rocío, a mãe de Valéria, estava com seu atual marido, Osvaldo Arriaga. Rocío usava um vestido claro e o cabelo preso. Osvaldo vestia um impecável terno cinza, um relógio de ouro e o sorriso de um homem acostumado a ter portas abertas para ele.
Quando ele me viu, aquele sorriso desapareceu.
“Efraín”, disse ele, aproximando-se. “Não pensei que você realmente viria.”
“Valéria me convidou.”
“Sim, eu sei. Ela é muito sentimental.”
Ele disse isso como se ser sentimental fosse um defeito.
Rocío olhou para mim, mas não se aproximou. Aquilo doeu mais do que se ela tivesse me insultado.
Osvaldo olhou para meus sapatos, depois para minha blusa, depois para minha bolsa.
“Olha, não quero ser grosseiro.”
Quando alguém começa assim, você sabe que o pior ainda está por vir.
“Há autoridades importantes aqui hoje, imprensa local, convidados da Marinha Mexicana. Valeria trabalhou muito para alcançar um nível mais alto. Não seria bom se… bem, se a imagem ficasse ruim.”
“Sou o pai dela”, eu disse.
Osvaldo sorriu sem mostrar os dentes.
“Pai biológico, sim. Mas todos nós sabemos quem a ajudou a se adaptar a ambientes mais adequados.”
Senti um nó na garganta.
Olhei para Rocío.
“Só quero vê-la receber o diploma.”
Ela baixou o olhar.
“Efraín, por favor… não dificulte as coisas.”
Não dificulte as coisas.
Como se eu tivesse vindo exigir algo.
Como se a mera existência da minha presença ali fosse um incômodo.
Osvaldo apontou para o fundo do pátio.
“Você consegue ver lá de trás também. Se você realmente se importa com a Valeria, não a deixe desconfortável no dia especial dela.”
Apertei a sacola de pano.
Dentro dela, ao lado do pão doce, carregava um apito de prata antigo pendurado por um cordão preto. Estava amassado, queimado de um lado e com três letras quase apagadas: R.C.M.
Valéria sempre me perguntava sobre ele.
Eu sempre dizia que era uma lembrança do porto.
Não era mentira.
Mas também não era toda a verdade.
Eu estava prestes a responder a Osvaldo quando ouvi passos rápidos.
“Papai!”
Valéria apareceu em seu uniforme branco, imaculada, elegante, linda. Correu em minha direção, sem se importar que todos estivessem olhando. Me abraçou tão forte que minhas costas quase cederam.
“Você veio”, sussurrou.
“Eu disse que viria mesmo que o ônibus afundasse.”
Ela riu, e por um segundo eu a vi novamente como uma menininha, sentada em um balde virado enquanto me esperava no cais.
Então ela olhou para Osvaldo.
“Meu pai senta com a minha família.”
O maxilar de Osvaldo se contraiu.
“Valéria, não fique chateada. Estou apenas pensando na sua imagem.”
“Minha imagem não é prejudicada por sentar ao lado do meu pai.”
Um oficial a chamou de volta à formação. Antes que eu pudesse…
Valéria pegou minha mão.
“Não vá, pai.”
“Estarei aqui.”
Ela correu de volta.
Mas quando tentei entrar na área reservada para famílias, uma jovem do escritório de protocolo me parou.
“Com licença, senhor. Seu nome não está na lista de assentos principais.”
Peguei o convite que Valéria havia me enviado.
Estava escrito claramente: Efraín Morales, Sr.
A jovem consultou sua pasta e franziu a testa.
“A lista foi atualizada esta manhã. O senhor está alocado na área de entrada geral, no fundo.”
Atrás de mim, Osvaldo tossiu levemente.
Ele não precisou dizer mais nada.
Eu entendi.
Eles haviam riscado meu nome da lista.
Abaixei a cabeça e dei um passo para trás. Eu não queria causar uma cena. Não queria que Valéria, com sua origem, me visse discutindo como um homem fora de lugar.
Guardei o convite na minha bolsa. Enquanto fazia isso, o velho apito de prata ficou preso no tecido e pendurado.
Tentei guardá-lo rapidamente.
Mas naquele instante, o Almirante Álvaro Castañeda subiu ao pódio.
A cerimônia começou com música militar, bandeiras e um silêncio solene. Eu estava quase no fundo, com a mochila pressionada contra o peito, tentando enxergar Valeria através da multidão.
O almirante falou sobre honra, o mar e sacrifícios silenciosos.
Baixei os olhos.
Sem pensar, soprei o apito.
Então a voz do almirante se calou.
O microfone ficou ligado.
Toda a cerimônia ficou em silêncio.
Olhei para cima.
O almirante não estava olhando para os cadetes.
Ele estava olhando para mim.
Não para o meu rosto.
Para o meu apito.
Ele desceu do pódio lentamente.
As pessoas começaram a murmurar.
Osvaldo empalideceu.
Rocío levou a mão à boca.
Valéria, da formação, olhou para mim, sem entender.
O almirante parou à minha frente.
Seus olhos, duros momentos antes, se encheram de algo antigo. Algo que parecia dor.
Ele apontou para o apito sem tocá-lo.
“Onde você conseguiu o apito do Capitão Rafael Cárdenas?”
Senti o mundo desabar sobre mim.
Não ouvia aquele nome em voz alta há vinte e três anos.
O almirante deu mais um passo.
“Diga-me quem você é.”
Engoli em seco.
“Efraín Morales.”
E então, diante de todos, o almirante ficou em posição de sentido.
Ele ergueu a mão.
E me saudou.
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