O Vestido dos Sonhos**
A luz da tarde entrava pela janela da cozinha como sempre, suave e dourada sobre o linóleo. Eu estava atrás da cortina, observando minha filha como se ela fosse algo que eu pudesse perder se desviasse o olhar por muito tempo.
Norma estava sentada à mesa com uma caixa de sapatos cheia de notas amassadas, alisando cuidadosamente cada uma contra a madeira. Já fazia três anos desde que o coração de Joe havia parado, mas a cadeira à sua frente ainda parecia pertencer a ela.
“Duzentos e oitenta”, anunciou ela, olhando para cima. “Mãe, faltam vinte.”
“Para quê exatamente?”
“Para o vestido, mãe! Aquele tom champanhe suave. Eu te disse.”
Sequei as mãos e sentei-me à sua frente. A parte de trás de seus sapatos estava tão gasta que dava para ver a pele avermelhada onde as bolhas haviam estourado.
“Cuidar dos gêmeos de novo amanhã?”
“E ir ao jardim da irmã do tio Bob no domingo!”, respondeu ela.
Fiz uma pausa.
Bob era amigo de Joe desde o turno da noite no motel. Era um homem quieto que tinha vindo ao funeral.
“Ele ainda te paga em dinheiro vivo?”
“Ele diz que não confia em bancos. Quase não fala comigo, mãe. Só me entrega o dinheiro e volta para dentro.”
“Seus pés, Norma.”
“Vale a pena, mãe. Eu prometo.”
Ela disse exatamente como Joe costumava dizer: quieta e confiante, como se o mundo não lhe devesse nada.
Aproximei-me e coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha dela.
“Seu pai ficaria orgulhoso.”
Ela sorriu antes de olhar para as contas.
“Você acha que a Sra. Clinton estará no baile?”
“A diretora? Acho que sim.”
“Ela chorou no ano passado quando tocaram a música lenta. Ela ficou parada perto da porta.” Que estranho, mãe.
“Algumas pessoas carregam coisas que não podemos ver, querida”, pensei, lembrando-me de Joe.
**O Terno no Armário**
Uma semana depois, o vestido estava pendurado na porta do armário, dentro de uma capa plástica protetora.
Norma estava descalça em frente ao espelho, o tecido cor de champanhe refletindo a luz quente da lâmpada. Seu rosto se iluminou de felicidade.
“Mãe”, ela sussurrou. “Como estou?”
“Você está linda, querida.”
Peguei meu celular e tirei uma foto.
Atrás dela, a porta do armário estava entreaberta. O velho terno preto de Joe ainda estava pendurado exatamente onde estivera por três anos. As folhas laranja bordadas na lapela brilhavam suavemente sob a luz da lâmpada.
Norma havia desenhado aquelas folhas com os dedos quando tinha dez anos.
“Porque o outono era a estação favorita dela”, eu sempre dizia quando ela perguntava por que as folhas eram laranjas em vez de verdes.
Mas havia algo mais que eu nunca lhe havia contado.
Na noite em que Joe trouxe aquele terno para casa, Bob estava sentado ao lado dele na caminhonete. Os dois ficaram parados na entrada da garagem por quase uma hora antes de Joe finalmente entrar.
Quando perguntei a ele, Joe apenas deu de ombros.
“Bob se preocupa demais.”
Norma viu meu reflexo no espelho.
“Mãe? Você está bem?”
“Só cansada, querida.”
Mas, ao desligar o telefone, uma sensação estranha me invadiu.
A noite do baile estava chegando e, de alguma forma, eu sentia que exigiria mais do que apenas um vestido.
**Uma Escolha Atrás das Máquinas de Venda Automática**
A noite do baile chegou com um aroma primaveril de grama recém-cortada e laquê.
Norma estava radiante, sentada ao meu lado no carro, envolta no vestido que havia conquistado com meses de trabalho árduo e pés cheios de bolhas.
“Mãe, pare de me olhar assim”, ela riu. “Você vai me fazer chorar e borrar todo o meu delineador.”
“Eu tenho o direito de olhar para você. Eu te criei!” brinquei.
Na calçada, ela apertou minha mão e desapareceu pela porta da frente da escola.
Eu mal tinha dirigido três quarteirões quando meu telefone tocou.
“Mãe.”
Sua voz estava trêmula.
“Tem uma menina aqui. Atrás das máquinas de venda automática. Ela está chorando.”
Parei imediatamente.
“Norma, calma. Quem é?”
“O nome dela é Claire, minha colega de classe. A mãe dela perdeu o emprego. Ela está usando uma saia velha e um cardigã com um botão faltando, e está se escondendo para que ninguém a veja. Eu me sinto tão mal, mãe. Queria poder fazer alguma coisa.”
Fechei os olhos.
Eu já sabia exatamente o que estava por vir.
“Mãe, eu quero dar meu vestido para ele”, Norma completou.
“Querida, não. Você trabalhou oito meses.”
O silêncio tomou conta da linha.
Quando ela falou de novo, sua voz estava calma de um jeito que me assustou.
“Papai teria entregado. Ele sempre dizia que a gente devia colocar os outros em primeiro lugar.”
Eu não podia discordar.
“Então, o que você vai vestir?” sussurrei. “O Kevin não vai ficar bravo?”
“É por isso que estou ligando. Você pode me dar uma roupa decente? Qualquer coisa. Por favor. E não se preocupe, mãe. O Kevin me convidou para o baile, não para uma festa chique.”
Dei meia-volta com o carro e acelerei para casa.
**O Último Presente de Joe**
Corri direto para o armário, pegando tudo que fosse minimamente formal.
Nada serviu.
Todos os meus vestidos eram grandes demais para a Norma.
Então meu olhar caiu sobre a sacola de roupas pendurada no fundo.
O terno do Joe.
Por um longo momento, fiquei paralisada, com os dedos no zíper.
Fazia três anos desde a última vez que o abri.
Três anos desde que o toquei.
Lentamente, abri o zíper.
Primeiro, apareceu o paletó preto.
Depois, a lapela.
E então, o conjunto de folhas de bordo laranja bordadas.
Tirei-o do cabide.
“Desculpe, Joe”, sussurrei. “Ela precisa de você esta noite.”
**O choque da diretora**
Norma estava me esperando na entrada lateral.
Ela já havia trocado de roupa, do vestido para a camiseta e a calça legging que usava por baixo. Claire já estava vestindo o vestido.
“Mãe, você trouxe o que eu pedi.”
Minha filha passou as duas mãos pelo tecido.
“Você trouxe o terno do papai.”
“Tem certeza?”
“Tenho certeza.”
Num corredor vazio, ajudei-a a vestir o casaco.
As mangas eram compridas demais, passavam dos pulsos.
Os ombros estavam largos demais.
Ela parecia uma criança e uma lembrança ao mesmo tempo.
“Você está linda”, eu disse.
E eu falava sério.
Ela me deu um beijo na bochecha, respirou fundo e empurrou as portas do ginásio.
Todas as cabeças se viraram instantaneamente.
Alguns alunos riram do terno grande demais.
Outros ficaram parados em silêncio, sem saber o que pensar.
Então Kevin se aproximou com um sorriso.
“Você está deslumbrante.”
Eu estava no fundo do ginásio, agarrando minha mochila contra as costelas.
Do outro lado da sala, a Sra. Clinton se afastou da mesa de ponche.
Sua mão ficou gelada.
Um segundo depois, seu copo de plástico escorregou de seus dedos e se estilhaçou no chão.
Ela atravessou o ginásio como se tivesse esquecido como respirar.
Os alunos se afastaram, confusos.
Quando chegou perto de Norma, ela agarrou a manga dele e pressionou o polegar contra as folhas de bordo alaranjadas.
“ONDE você conseguiu esse terno?”, sussurrou.
“Era do meu pai”, respondeu Norma, intrigada.
“Onde seu pai o conseguiu? Ele chegou a dizer?”
“Não sei. Ele simplesmente o tinha.”
Abri caminho entre os alunos.
“Sra. Clinton. A senhora está assustando minha filha. O que houve?”
“Preciso que me diga quando seu marido comprou esse terno. Onde ele trabalhava?”
“Anos atrás. Sete, talvez mais. No motel do centro. Ele chegou em casa uma noite usando-o.”
O sangue sumiu do rosto dela.
“Ai, meu Deus”, ela suspirou.
Então, pegou o celular.
“Sim, sou a Sra. Clinton, diretora da escola secundária do centro. Preciso de policiais aqui imediatamente. É sobre meu irmão.”
“Seu irmão?” exclamei. “Não entendo.”
Ela finalmente olhou para mim.
Seus olhos estavam vermelhos e selvagens.
“Eu mesma costurei essas folhas. Há sete anos. Na jaqueta do meu irmão. Na noite anterior ao seu desaparecimento.”
Meus joelhos quase cederam.
“Meu marido usou esse terno por anos.”
“Então seu marido sabia o que aconteceu com meu irmão.”
“Meu marido está morto. E ele jamais teria guardado o terno se soubesse. Ele não era esse tipo de homem.”
Dois policiais chegaram em menos de dez minutos.
O mais alto olhou para a lapela e empalideceu imediatamente.
“Precisamos que você e sua filha venham à delegacia.”