Parte Um: A Última Manhã Normal**
Completei dezoito anos numa terça-feira de setembro e passei a manhã da mesma forma que passava todas as manhãs desde que me lembro: no caos controlado de uma casa com gente demais e banheiros de menos.
Nossa cozinha às sete da manhã era um sistema meteorológico peculiar. Sempre havia algo queimando, algo derramando, alguém gritando por causa de algo que tinha pegado emprestado sem pedir. Minha mãe costumava dizer que criar oito filhos numa casa de três quartos era como estar no olho do furacão: se você ficasse bem quieto e mantivesse o foco, conseguia lidar com a situação. Se perdesse o foco por um instante sequer, as paredes começavam a tremer.
Naquela manhã, Tommy tinha decidido fazer o café da manhã.
Historicamente, isso nunca era um bom sinal.
Tommy tinha nove anos e possuía um espírito criativo que superava em muito suas habilidades práticas. Ele despejou uma caixa inteira de cereal — daquele caro, o que nós racionávamos cuidadosamente — numa panela, adicionou leite e ligou o fogo. Ele estava mexendo a sopa com uma colher de pau, usando o avental da nossa mãe, que arrastava no chão atrás dele, quando Lila entrou e parou de repente.
“O que é isso?”, perguntou Lila.
“Sopa de café da manhã”, anunciou Tommy, com toda a dignidade.
“Isso não existe.”
“Agora existe. Eu inventei.”
Phoebe apareceu na porta atrás de Lila, olhou para a panela borbulhante e fumegante e anunciou que ia vomitar. Sybil entrou pulando do corredor, com um sapato na mão, gritando que alguém tinha mexido no outro sapato dela e que precisava dele em 30 segundos ou ia se atrasar, e que a culpa era de alguém, provavelmente do Adam. Ethan e Adam estavam parados um de frente para o outro na porta da sala, naquela pose típica de irmãos prestes a brigar por alguma besteira, que acabou sendo um moletom cinza que nenhum dos dois tinha e nunca tinha tido, mas que ambos aparentemente decidiram que precisavam. O pequeno Benji apareceu vindo do corredor, arrastando seu cobertor azul esfarrapado como um fantasma sonolento, um olho aberto, o outro bem fechado, guiando-se por puro instinto.
Por dez segundos, fiquei parada no meio de tudo aquilo — a sopa de cereal, os gritos e engasgos da Phoebe e o relato cada vez mais dramático do Adam sobre a posse do moletom — e era barulhento, exaustivo e completamente, normalmente perfeito.
Então abri a porta da frente para pegar o jornal, e a manhã acabou.
Dois policiais estavam na varanda. O carro deles estava estacionado na calçada com as luzes apagadas. O mais velho segurava o chapéu nas mãos. O mais novo olhava para o chão.
“Você é Rowan?”, perguntou o mais velho.
Eu já tinha visto filmes o suficiente para saber o que isso significava. Já tinha lido notícias o suficiente. Eu entendia a gramática da situação: os chapéus, a postura, o jeito peculiar como eles não me olhavam nos olhos. Mas o cérebro resiste ao conhecimento que não deseja, e por um longo e estranho segundo, eu apenas fiquei olhando para eles.