ANÚNCIO
Parte 2:
Os primeiros dias foram uma batalha contra tudo. Ela coletava água da chuva em baldes quebrados. Remendava buracos com lonas velhas. Aprendeu a acender uma fogueira com madeira úmida. Passava noites inteiras sem dormir, segurando Lupita perto de si enquanto algo rastejava lá fora entre as tábuas. Mosquitos as devoravam. Certa vez, cortou a perna em uma chapa de metal enferrujada enquanto tentava consertar o telhado e, sentada na lama, sangrando, chorou como nunca havia chorado nem no funeral da irmã.
Pensou em desistir.
Pensou que talvez Lupita ficasse melhor com uma família de verdade.
Mas então a menininha apareceu com um pequeno Band-Aid na mão, ajoelhou-se ao lado dela e disse com uma seriedade comovente:
“Eu vou cuidar de você, tia. Minha mãe fazia isso quando eu caía.”
O Band-Aid era ridiculamente pequeno para aquele ferimento, mas o gesto sustentou seu mundo. Valéria enxugou o rosto com o dorso da mão enlameado, beijou Lupita na testa e se levantou.
“Vamos”, disse ela. “Ainda temos um longo caminho pela frente.”
No terceiro domingo, ela ouviu o motor de um barco diferente. Não era o velho barco de suprimentos. Era um barco rápido, preto, potente. Valéria escondeu Lupita debaixo da cama, pegou sua faca de cozinha e ficou parada na porta.
Um homem alto saiu do barco, vestido todo de preto, com ombros de soldado, uma cicatriz que ia da maçã do rosto até a têmpora e olhos frios e cinzentos, como um céu tempestuoso.
Seu nome era Julián Navarro.
⏬ Continua na próxima página ⏬