PARTE 1
A bengala de Dona Elena bateu no chão de mármore com um estalo seco.
Voou pelo corredor, ricocheteou numa parede coberta de rosas brancas e parou debaixo de uma mesa. Um segundo antes, ela estava em frente ao camarim da noiva.
No segundo seguinte, começou a cair.
Gabriel Navarro deixou cair a pasta que carregava e conseguiu ampará-la antes que sua cabeça batesse no chão. Contudo, a perna esquerda de Elena cedeu e ela gritou de dor.
“Mãe, não se mexa.”
“Estou bem, filho.”
Ela não estava.
Seu rosto estava pálido e uma das mãos apertava o quadril que nunca sarara completamente após o acidente em que seu marido morrera quatro anos antes.
Gabriel olhou para cima.
Em frente ao espelho estava Renata Villaseñor, sua noiva, ajeitando o véu como se nada tivesse acontecido. Por trás do vestido branco, ela ainda segurava o calcanhar que usara para chutar a bengala.
“Você está louca?”, gritou Gabriel.
Renata virou-se lentamente.
“Ela caiu.”
“Você chutou a bengala dela.”
“Eu tirei o pé.”
“Você sabe que ela não consegue ficar em pé sem ela.”
Renata suspirou, irritada.
“Não comece com o drama hoje, Gabriel. Meu casamento começa em 14 minutos.”
Meu casamento.
Durante um ano, ela chamou a cerimônia assim, como se Gabriel fosse apenas mais um elemento da decoração.
Elena puxou delicadamente a manga do filho.
“Me ajude a sentar.”
“Vou chamar uma ambulância primeiro.”
“Não precisa.”
Renata revirou os olhos.
Gabriel viu.
Ele também viu que não havia arrependimento algum em seu rosto. Ela estava simplesmente irritada porque uma mulher ferida estava atrasando a entrada no salão onde 250 convidados aguardavam.
“O que aconteceu antes de eu chegar?”, perguntou.
Elena hesitou.
“Perguntei a ela sobre alguns documentos.”
Renata parou de tocar o véu.
“Você não tinha o direito de vê-los.”
“Eles estavam abertos na mesa de Gabriel.”
“Que documentos?”, exigiu ele.
Sua mãe respirou fundo.
“Um acordo para transferir 22% das ações da sua empresa para o fundo fiduciário da família Villaseñor após o casamento.”
O corredor ficou em silêncio.
A expressão de Renata endureceu.
“Sua mãe não entende dessas coisas.”
Dona Elena era advogada corporativa há 31 anos.
Antes que Gabriel pudesse responder, Dom Octavio Villaseñor, pai de Renata, apareceu, acompanhado de seu filho Ramiro e três damas de honra.
Octavio olhou para Elena no chão e depois checou o relógio.
“O que está atrasando a cerimônia?”
“Sua filha bateu na bengala da minha mãe.”
“Foi um mal-entendido infeliz.”
“Minha mãe está machucada.”
“Então leve-a para o hospital. Temos centenas de pessoas esperando.”
Gabriel olhou para a família que estava prestes a formar.
Renata se aproximou e baixou a voz.
“Você vai se acalmar. Sua mãe irá para o hospital, nós nos casaremos e depois resolveremos isso em particular.”
A certeza em sua voz finalmente abriu os olhos dele.
Renata acreditava que as flores, os convidados, a imprensa e o dinheiro gasto o obrigariam a obedecer.
Gabriel se levantou.
“O casamento está cancelado.”
Renata soltou uma risada incrédula.
“Você não ousaria.”
Gabriel caminhou em direção às portas do salão.
Ela o seguiu.
“Gabriel, não faça nenhuma besteira.”
Ele abriu as portas, pegou o microfone diante de 250 pessoas e proferiu uma frase que paralisou até os músicos:
“Não haverá casamento, e antes do dia terminar, todos saberão o que a família Villaseñor estava tentando me roubar.”
PARTE 2
Continua!👇
👉🏻👉🏻👉🏻